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A questão mecânica no hermetismo, uma investigação sobre o paradigma da relação corpo e incorpóreo nas relações fenomenológicas e magicistas.






Premissas e conceitos:

1-      Chama-se corpóreo é tudo aquilo que é engendrado¹.
1.1-  Tudo que é engendrado é corruptível².
1.2-  Todo corpo é móvel.
1.3-  Um corpo não deve ser capaz de mover outro corpo.

Explicação: O hermetismo, trabalhado a partir do Corpus Hermeticum, trabalhará com a dualidade corpo e espírito, tratando como corpo tudo àquilo que é móvel e sujeito a mutação, e como espírito o contrário disto. Sendo o corpo um móvel, não pode ele mover outros corpos, uma vez que, o móvel é àquilo que é movido, sendo necessário então um outro objeto, o qual ele chamará de incorpóreo ou espírito.

Premissas e conceitos:

2-      Chama-se incorpóreo tudo aquilo que é não-engendrado.
2.1- O incorpóreo é incorruptível.
2.2- O incorpóreo é imóvel e motor.
2.3- O incorpóreo é responsável pelo movimento dos corpos.

Explicação: O incorpóreo é não criado, e desse modo, não faz parte do mundo, não estando sujeito ao devir. Ele também não pode ser movido, já que não exerce força motora sobre si mesmo e nada há maior que ele. Desse modo, o incorpóreo é responsável por mover os corpos, tanto no movimento mecânico, quanto no movimento potencial³.

Premissas e conceitos:

3-      O espaço é um incorpóreo.

3.1- Todos os corpos estão contidos no espaço.
3.2- O espaço é o recipiente do corpo.
3.3- O espaço deve ser superior ao corpo, para que lhe seja permitido o movimento.
Explicação: O espaço não é um corpo. Está é, talvez, uma noção difícil de ser pensada. Tomemos como exemplo, um cômodo de uma casa, nesse cômodo há uma cama, o cômodo é formado por paredes, porém não é o centro da união de paredes que é o espaço, estando este cômodo, assim como toda a casa, ou melhor, o mundo, contido num espaço, incorpóreo e ilimitado.

Premissas e conceitos:

4-      O espaço não possui limite.
4.1- O corpo possui forma e limite, todo corpo é limitado.
4.2-O incorpóreo não possui forma, sem forma não é possível lhe impor fronteiras.
4.3- Não há limites para o incorpóreo.

Explicação: Tal desenvolvimento não se encontra no hermetismo de maneira clara, mas é amplamente desenvolvida por hermetistas do período renascentista, tal como Giordano Bruno, em seu livro “Sobre o infinito, o universo e os mundos”. Tal pensamento, que possui base na geometria, afirma que só é possível impor limites espaciais ao corpo, sendo o incorpóreo, ilimitado, ou não passivo de dimensão.

Premissas e conceitos:

5-      O mundo é um corpo.
5.1- O mundo é a totalidade dos corpos.
5.2- O mundo, enquanto totalidade é um móvel potencial.

Explicação: O mundo é um composto, um corpo, composto por todos os corpos. Segundo o hermetismo esse mundo está “contido” no intelecto divino, no incorpóreo, porém não é claro na obra, se ele possui limites ou é infinito. Graças ao pensamento antigo, pensa-se o mundo no hermetismo como limitado, como uma forma talvez de manter uma linearidade histórica, outros autores porém, defenderão a noção hermética de mundo como infinito. A grande questão nesse debate, é a afirmação de que o mundo está contido no espaço incorpóreo. Se algo o contém, ele possui um limite, porém o contra argumento a noção do limite do mundo no hermetismo, é a afirmação de que o espaço ao qual ele se refere, não é enquanto lugar, mas enquanto pensamento divino. Não entrarei nesse debate, apenas apresento as posições.

Citações:

“Todo móvel é movido não em qualquer coisa que se move, mas em qualquer coisa em repouso: o motor também está em repouso, pois não pode ser movido com aquilo que move”
(Hermes, p 20-6)

“Todo movimento então é feito numa imobilidade e por uma imobilidade. Assim então, o movimento do mundo e de todo vivente material deve provir não de causas exteriores ao corpo, mas interiores, operando de dentro para fora, quer seja dos inteligíveis, quer seja a alma ou o sopro ou qualquer outro incorpóreo.
 Pois um corpo não pode mover animado, de uma maneira geral, nenhuma espécie de corpo, mesmo se este corpo é inanimado.”
(Hermes, p 21-8)

Pois é o que se encontra dentro do corpo que é o motor da coisa inanimada e não esse corpo mesmo, que move de uma só vez dois corpos, o corpo daquele que porta e o corpo daquele que é portado”
(Hermes, p 21-9)

A concepção de Magia

   A magia é tratada na história do ocultismo, de dois modos, um modo a trata como uma disciplina investigativa ou uma ciência (Logos- λόγος) ,o outro modo a trata como uma arte, uma disciplina técnica, ritualística e religiosa. A magia enquanto ciência, mescla-se a filosofia antiga e a gnose e as religiões de mistérios, onde o mago seria o sujeito que busca desvelar natureza, compreendendo seus aspectos não perceptíveis aos sentidos, as chamadas virtudes ocultas, para fim de adquirir conhecimento simplesmente, ou para, como comumente se aponta, produzir efeitos sobre a Natureza. Por outro lado, a magia enquanto algo puramente artístico, que o modelo mais comum na qual ela é tratada nos meios mais populares, tem seus princípios em uma raiz totalmente religiosa. Não é possível demarcar quando começa, uma das teses mais aceitas na atualidade, é que as bases da magia ritual(artística) remonta ao período rupestre.  Sejam quais forem as concepções de magia já trabalhadas, na contemporaneidade, faz-se uma distinção clara entre esses dois modelos, chamando a ideia científica de magia de Ocultismo, e a ideia artística mantendo o nome magia.

  Magia é uma faculdade de
maravilhosa virtude, cheia
dos mais nobres mistérios,
contendo a mais profunda
contemplação das coisas
mais secretas junto à
natureza, ao poder, à
qualidade, à substância e às virtudes
delas, bem como o conhecimento de toda
a natureza, e ela nos instrui acerca da
diferença e da concordância das coisas
entre si, produzindo assim maravilhosos
efeitos, unindo as virtudes das coisas
pela da aplicação delas uma em relação a
outra, unindo-as e tecendo-as bem
próximas por meio dos poderes e das
virtudes dos corpos superiores.
(Agrippa, p 80)
Essa é a mais perfeita e principal
ciência, a mais sagrada e sublime espécie
de filosofia e, por fim, a mais absoluta
perfeição de toda a excelentíssima
Filosofia. Pois, vendo que a filosofia
reguladora é dividida em natural,
matemática e teológica — a filosofia
natural, aliás, ensina a natureza das
coisas que estão no mundo, explorando e
investigando suas causas,
efeitos, tempos, lugares, maneiras,
eventos, o todo e as partes,
(Agrippa, p 80)

“ A magia era o exercício de propriedades psíquicas adquiridas nos diversos níveis de iniciação. O desenvolvimento da vontade é o fim que todo homem deve ter em mente, se deseja comandar as forças da natureza.” (Papus, p 104)

 Os defensores da antiguidade rupestre da magia parecem em diversos sentidos, defender uma dicotomia da prática mágica, em que ela é colocada sob aspectos da linguagem e da fé. No exemplo dos homens das cavernas, diz-se esses estudiosos, que as pinturas de caça feito com sangue de animais nas paredes da caverna, não estavam ali, somente para narrar um ocorrido, mas para manipular a natureza de modo, que a próxima caça ocorra tal como documentado. Em termos de magia moderna, um primitivo sistema de signo era criado, alimentado por meio de um rito, para exercer influência sobre os fenômenos. Partindo do princípio que tal história seja verdadeira, ao analisarmos o sistema mágico moderno, vemos que muito pouco mudou desde esse primórdio.
  O que muito comumente se observa, é uma tentativa de reciclar as noções de magia, fazer que idéias antigas ainda façam sentido na contemporaneidade.
 Tendo observado que sistemas diferentes tratam por magia coisas diferentes, hora como um estudo intelectual, hora como uma prática de emoções e transcendência (ambos os conceitos bem misturados no hermetismo) , darei agora a significação que escolhi para tratar do tema nesse texto, e como analisar a prática mágica dentro da perspectiva mecânica do hermetismo.
  Como foi analisado no corpus hermeticum, todo movimento, sem exceção, parte de um incorpóreo, um motor, uma ANIMA. Esse motor é causa eficiente, sendo responsável pela tanto mudança espacial dos objetos, quanto pela mudança formal. Em um exemplo claro, a ação desse incorpóreo sobre nós, fará com que nosso corpo se desenvolva e faça tudo aquilo que ele está apto a fazer. Porém, quando aplicamos o princípio de correspondência hermética para compreender o funcionamento da magia, vemos que não temos nenhuma dificuldade em pensar isso. Defino pois, por magia, o efeito de um incorpóreo sobre uma estrutura potencial. Pensemos isso mais claramente: “O efeito de um incorpóreo sobre uma estrutura potencial”.
 Já vimos, que o incorpóreo a força que dá movimento aos corpos, falta-nos compreender, o que se quer dizer com “Estrutura potencial”. Chamo por estrutura todo composto de dois ou mais objetos, que se comunicam de modo a gerar uma cadeia de possibilidades. Porém tal estrutura, seria imóvel, caso não fosse tocada por um incorpóreo, de modo que, as possibilidades da interação entre os objetos simples, jamais viesse a se tornar presentes. Por exemplo, uma semente é um objeto composto de N objetos mais simples, de modo que, as interações desses objetos contidos na semente, conjuntamente a objetos externos, fazem com que essa semente venha a se tornar uma árvore, porém tais objetos contidos nessa semente não são suficientes, embora sejam necessários, é preciso ainda uma força que faça com que essa interação ocorra e se desdobrem numa cadeia de possibilidades. E por isso que essa estrutura é potencial, pela razão mesma de que ela se desdobra numa cadeia de possibilidades. De modo que, um magicista pode acelerar o crescimento de uma planta, ou retardar, mas não pode fazer que desta planta brote um elefante, pelo menos, não apenas utilizando água, luz e terra.
 O magismo então, nada mais é que, a construção de estruturas potenciais e imposição da força motora sobre tais estruturas, de modo que, para seu funcionamento deve-se atentar tanto a cadeia de possibilidades, quanto a força empregada.
 Ainda hoje, é comum observar entre os praticantes da arte, em uma total alienação, se valem de estruturas pré-estabelecidas, sendo que de modo algum, compreendem o modos operandi dessas técnicas. Paracelso, em seu livro A Chave da Alquimia4 , tece uma crítica aos pensadores de sua época, incluindo entre eles os místicos. Tal crítica, que vai desde a adjetivação de “copistas”, “aduladores” até a “adestradores de cães” se dá pelo fato de que, um fenômeno comum a época(Século XV e XVI), o trabalho alienado sobre os ramos do conhecimento, ou a mera repetição de doutrinas, já era observado e me atrevo a dizer, é perpetuado até os dias de hoje.
  Talvez, um modo, de quebrar este ciclo coprofágico5 , se dê pelo estudo estrutural da magia e de outros interesses do ocultismo, para que possamos hoje, como os antigos, investigar a natureza e o homem, a partir deles mesmos, sem que precisemos mais, nos fixarmos a paradigmas e doutrinas.

Praebere Sitientibus”
Lord Vincus
2015




Notas:
1- Engendrado: Que foi gerado, produzido, composto, feito.
2- Corruptível: Que é passivo de mudança, passivo de deixar de ser o que é, imperfeito.
3- Movimento mecânico e movimento potencial: O movimento mecânico é o movimento que se dá no espaço, como o deslocamento, por exemplo quando movemos um objeto do ponto A até o ponto B. O movimento potencial se dá no próprio objeto, quando ele deixa a forma A para tomar a Forma B, por exemplo, quando uma semente deixa sua ‘’forma semente’’ para tornar-se outra coisa.
4- Opera Omna, no original.
5- Termo retirado do texto MÍSTICOS, FALÁCIAS, ILUSÕES E CICLOS COPROFÁGICOSdo autor Hugo Lemos. O texto pode ser encontrado no blog acasaocultismo.blosgpot ou no site ocultismo.org.

Bibliografia trabalhada:

Hermes Trimegisto.  Corpus Hermeticum. Editora Hemus. 1978
Bruno, Giordano. Sobre o infinito, o universo e os mundos. Editora Nova Cultural.1988.
Três Iniciados. O Caibalion. Editora Pensamento. 1997.
Agrippa, Cornélio. Três Livros de Ciências Ocultas. Editora Madras.
Papus, Tratado de Ciências Ocultas. Editora Três. 1973.
Paracelso. A Chave da Alquimia
. Editora Três. 1973.
Lemus, Hugo.Místicos, falácias, ilusões e ciclos coprofágicos.Sociedade Filosófica Estrela Rubra.2014.






“A ciência é um empreendimento essencialmente anárquico:
o anarquismo teorético é mais humanitário e mais suscetível de
estimular o progresso do que suas alternativas representadas por
ordem e lei.’’ P.K. Feyerabend


   Paul Feyerabend, em sua introdução do livro “Contra o Método”, deixa claro aquilo que ele deseja defender na obra. Seu trabalho aqui será tratar que o conhecimento, seja ele de qual ordem for, não deve ser dito por uma única tradição ou único método. Sua defesa se dá, em grande parte, por duas razões; A primeira é pelo fato do mundo ser demasiado desconhecido, de modo que, o risco de um sistema epistemológico único não ser capaz de apreender tudo, é muito alto. O bom cientista, segundo o autor, seria aquele que é capaz de dominar qualquer metodologia, transgredir uma metodologia vigente e passar de um sistema para outro sempre que o usual não for capaz de abarcar um determinado imprevisto. O segundo motivo se dá por uma razão ‘humanista’, razão que é contrária a anulação do elemento humano, que segundo as escolas, corrompe o pensamento científico, de modo que a ciência para o autor não deve ser apenas uma instituição fria, mas uma instituição que ajude a desenvolver pessoas e desperte o interesse pelos segredos da natureza. A defesa humanista de Feyerabend se dá nessa introdução, pelo fato de que, a ciência não se dá simplesmente a descrição fria dos fenômenos, mas  por interpretações, erros e problemas criados por observações e interpretações conflitantes.
  A necessidade de um método é defendida por alguns autores, pelo fato de delimitar a área de atuação e simplificar o pensamento. Desse modo, o conteúdo científico é mais facilmente reproduzível e apegado a uma única linha de raciocínio, de modo que, cientistas diferentes possam comunicar-se numa mesma linguagem. Além disso, o método visa impedir a contaminação da ciência por pensamentos religiosos ou metafísicos, que poderia relativizar a tradição científica. A grande questão, trazida aqui pelo autor é “Apesar desse modelo funcionar, ele realmente deve ser posto acima de outros gêneros de conhecimento e modos de conhecer? Deve-se ignorar todo saber que não fora demonstrado por um método científico vigente?” A resposta do autor, a esta questão é; Não. As razões disso, já foram expostas no primeiro parágrafo.

“A tentativa de fazer crescer a liberdade,
de atingir vida completa e gratificadora e a tentativa correspondente
de descobrir os segredos da natureza e do homem implicam,
portanto, rejeição de todos os padrões universais e de todas as
tradições rígidas.”
(p 22)

  O anarquismo científico Feyerabend, entretanto, não exclui a rigidez do método científico, ele o abarca, assim como abarca todo e qualquer método capaz de produzir conhecimento sobre a natureza.
  No meio ocultista, existe dentre os mais estudiosos, os debates acerca do método adequado ao ocultismo. Nesse debate segue-se duas correntes, uma moderna e outra mais tradicional. Os tradicionalistas costumam defender que o ocultismo e o magismo devem seguir determinada tradição metodológica, sendo todo resto “pop Magic” ou mera indução mental, tal crítica, parte do princípio de que há uma ordem(kosmos) por eles conhecida por meio dos registros de sua tradição. Os modernos, que se aproximam daquilo que Feyerabend chama de “Anarquismo”, não rejeitam os meios tradicionais, mas não prendem-se a eles, defendendo que há N maneiras possíveis tanto para a prática investigativa, como magicista.
Este texto é meramente um comentário à introdução da obra “Contra o Método” de Paul Feyerabend. E em breve, se assim meus leitores desejarem, pretendo comentar os capítulos da obra, sempre trazendo a discussão pro nosso meio. Pois engana-se quem pensa, que a evolução do pensamento ocultista tenha se dado de forma independente do resto dos movimentos culturais do homem.



“Praebere Sitientibus”
Lord Vincus
2014


  

Embora seu tratamento no meio ocultista(escrito) seja em maior parte contemporâneo e ainda muito especulativo, o sexo deve ser tema de máxima relevância para o estudante. Tal afirmação é feita não por um caráter ético ou espiritualista, bem longe disso, mas pelo caráter próprio do ocultismo e das noções de conhecimento sobre si mesmo.
  Graças ao pensamento asceta, o sexo tornou-se algo impróprio ao pensamento humano, segundo Foucault tal ideal tornou-se mais forte graças aos movimentos científicos/psicologistas do século XVIII sob a influência do movimento industrial, diz o citado filósofo que com a revolução industrial o mundo europeu adotou um pensamento totalmente voltado à lógica de produção, e por culpa disso, o sexo tornou-se um meio de produção como qualquer outro, cuja única finalidade era a procriação, tal ideal foi criado dentre vários motivos, para incentivar a geração de trabalhadores fabris e fortalecer o comando dos burgueses sobre a classe operária unindo o dogma religioso com o cientificismo da época. Graças a esse fato histórico, formas sexuais não conceptivas foram tomadas não só como aberrações morais, mas também atentados contra a saúde do Estado. Jovens eram proibidos de se masturbarem, pois tal prática segundo o meio científico poderia causa tanto impotência na vida adulta, como a loucura. Para impedir a masturbação de homens e mulheres incentivou-se o casamento nas idades logo após o movimento de maturação dos corpos. Não só a masturbação tornou-se proibida, mas o sexo oral e anal, pelos mesmos motivos, gasto de sêmen e deficiência psicológica(Veja que esses influenciam também o movimento espiritualista asceta dos modernos). Começa então verdadeiramente a luta contra o sexo com prostitutas e contra o sexo não conceptivo(contra grupos homossexuais principalmente), tal luta que é moderna e não medieval como muitos acreditam.
  Embora a ciência atualmente tenha voltado atrás com essas questões(por razões também políticas) esse modo de ver o mundo influencia enormemente nossos espíritos, apenas com os movimentos contra o cristianismo e por conseguinte contra a cultura, dos séculos XIX e XX com pensadores como Aleister Crowley, Nietzsche e Anton Lavey que os jovens passam a buscar uma maior liberdade corporal e espiritual. Embora a influencia desses e de outros autores na libertação da prática/pensamento sexual seja louvável, nossa sociedade(Brasil) ainda se prende aos dogmas sociais, não importando se o grupo é cristão, ateu ou pagão, a liberdade sexual ainda é rara.
  Segundo Foucault o sexo foi tema importante para as escolas de mistérios do oriente e do ocidente, e objeto necessário da iniciação da juventude no conhecimento sobre a natureza. Segundo o autor, o sexo deve ser ensinado ao jovem de duas formas com nomes distintos, esses são a "Scientia Sexualis" e a "Ars Erótica", a primeira é a educação através da palavra dita ou escrita, no caso, se dá por meio do discurso cientifico e filosófico e a segunda é a parte inominável do conhecimento sexual e só pode ser compreendido pela prática.
  Na Scientia Sexualis, gênero de conhecimento desenvolvido principalmente pelo cristianismo e a escolástica, há uma necessidade de falar sobre o sexo, dizer sua função, suas necessidades etc. Tal modo não só é/era insuficiente para tratar o tema, como foi usado como modo da Igreja/Nobreza compreender e discutir tais temas tidos como vulgares(dos pobres) e animalesco sem comprometerem a própria honra. A Scientia Sexualis é provavelmente a causadora dos maiores equívocos sobre o sexo, que lançou ao inferno os assexuados, homossexuais e libertinos.
  Na Ars Erótica o conhecimento se dá por meio da prática do sexo, questões como "O que é o sexo", "O que é necessário para o sexo" e coisas do gênero não são importantes, porém não se deve tomar como a prática sexual livre de conhecimento, mas repleta dele. Conta Foucault que os mestres educavam seus alunos de forma direta ou indireta, os jovens(geralmente homens) eram levados a compreender como se dava o prazer em seu próprio corpo, quanto ele durava utilizando diferentes modos, como intensifica-lo, como livra-lo da dor e assim por diante. O aprendiz era levado a compreender seu próprio corpo, e mais do que isso, a supera-lo! A cada prática, o mestre instruía seu aprendiz a como intensificar o prazer, como intensificar o tempo, como escolher boas mulheres para o coito, enfim o ensinava verdadeiramente sobre o sexo.
  O sexo para o ocultista passa de ferramenta de conhecimento de si mesmo, para ferramenta de auto controle em diversos níveis, pois aí é exigido não só o controle do corpo, mas da mente. O prazer perde toda a qualidade moral e passa a ser um fato e uma competência.
O aprendizado do sexo, não se limita ao uso prático e teórico dentro do próprio sexo, mas se estende ao espírito por dar ao estudante melhor controle emocional e da Vontade, se estende ao social por dar ao estudante maior liberdade de expressar-se e de pensar e principalmente se estende ao corpo, que se torna menos submisso.
  Não penso em outro estudo sobre o sexo no ocultismo que não exija a prática do controle emocional, corporal e intelectual. O uso do sexo para ativar esse sigilo ou para qualquer fim do gênero se torna estapafúrdio para aqueles que aprendem de fato sobre o tema, que aprendem a conhecer e não a reproduzir somente.
  Tais afirmações se tornam claras, quando conhecemos o ocultismo e sua história, seu mapa conceitual, quando vemos além do absurdo de ver o ocultista como aquele que estuda o sobrenatural e reproduz técnicas ou devaneios do tipo, mas quando vemos o ocultista como aquele que em sua sede pela verdade(βιος θεωρπτικός), retira o véu que cobre conhecimento, como desvelador e não como aquele que vela(põe o véu). Sendo então o ocultista um des-cobridor, um homem de Aletheia, ele deve ser aquele que em qualquer tema, seja sobre o Sexo ou sobre o Homem, não se prende ao que foi dito, mas experimenta sem prender-se a experimentação buscando desvelar e conhecer o que ali se oculta, e sendo ele um magicista, deve ser também capaz não só de mostrar o que aprendeu, mas de elevar e superar-se em suas práticas e conhecimentos.

"Praebere Sitientibus"
Lord Vincus
2014


Os moderadores do grupo Ocultismo convidam nossos leitores a estudarem a obra "Contra o Método" de Paul Feyerabend  dentro de uma perspectiva que dialogue com o Ocultismo. A proposta é lermos juntos, pelo menos um capítulo por semana, e a cada semana publicarmos um resumo comentado do capítulo lido. Desse modo, nossos leitores podem, se desejarem, enviar seus comentários sobre a obra abordando a perspectiva do método no ocultismo, e se tais comentários forem julgados úteis por mim, poderão ser publicados aqui no Blog. Além disso, discussões sobre a leitura serão possíveis no grupo acima mencionado.
O texto a seguir é da minha "Opera Magna" um livro que só pretendo publicar daqui a alguns anos(se publicar, pois se trata de um livro muito pessoal), trago aqui com certo receio, pois é uma obra ainda em construção. Trago para nível de reflexão textual aqui no grupo. O texto é simples e não segue os rigores acadêmicos, mas busca na medida do possível a clareza e a preocupação com a aprendizagem do leitor.




  Todo símbolo é, sem muito medo de equivocar-me, uma roupagem pela qual uma ou mais ideias ou objetos se expressam. Essas ideias cuja a fonte pode possuir ou não uma forma específica serão por mim chamadas de espírito. O espírito é então aquilo que é imanifesto em si mesmo, porém é manifesto quando apropria-se de um agente plástico. Um exemplo claro está sendo dado continuamente ao meu leitor por meio dessas palavras que utilizo para me expressar, essas palavras que não são a coisa mesma evocam as coisas para as quais servem de vestimenta.
  Quando falo de 'Justiça', por exemplo, devo atentar que aquilo que chamamos por esse nome não possui forma e não pode de modo algum ser comunicado, a menos que, este espírito seja revestido de um ou mais corpos para que seu sentido possa ser conhecido. O espírito da justiça é comunicado por meio de sua roupagem coma a grafia ou som de seu nome, desse modo, sempre que ouvirmos a palavra ou tomarmos alguma de suas manifestações visuais acabaremos por evocar total ou parcialmente os espíritos que nesses símbolos estão ocultos.
  Para um espíritos ser devidamente evocado, Tê-lo selado em uma ou mais símbolos não é suficiente, é necessário que ele esteja devidamente inserido em um sistema de símbolos concatenados, com efeito, se tomarmos por exemplo a palavra 'cadeira' sem tê-la inserido em uma rede de símbolos ela não terá nenhum significado, se por outro lado esta mesma palavra estiver dentro de um sistema ela passa a informar alguma coisa, afinal só posso evocar um espírito se já tiver dominado os espíritos que a ele são submissos, igualmente, só posso evocar e fazer uso do espírito da cadeira quando possuir o controle dos espíritos mais simples que a ela seguem, tal como o espírito de encosto, base e acento.
  Ainda nesse sentido, se eu quiser evocar o espírito do Sol quando seu objeto não estiver pairando sobre o firmamento, devo antes evocas os espíritos que lhe são subordinados, tal como os espíritos da luz e do calor ou de qualquer coisa sob o domínio do Sol ou que lhe dê significado. Desse modo quando percebemos que todos os espíritos se concatenam, percebemos que quanto maior o número de espíritos que dominamos, maior será a facilidade de dominar espíritos mais complexos, o que se deduz que o ocultista deve conhecer os espíritos mais simples para assim poder alcançar seus respectivos governantes e sobre eles exercer domínio, esse é um dos pilares do conhecimento, com efeito basta dominar o exercito para subjugar o comandante.
  Desse modo no que diz respeito aos espíritos que ainda não conseguimos dominar, basta que encontremos seus respectivos servos e tenhamos posse de seus selos para então através deles tomarmos o seu governante, vale ressaltar que muitos espíritos possuem mais de um senhor, e muitos senhores são servos de espíritos muito maiores. Como exemplo de um espírito com mais de um senhor temos o espírito da quentura, que serve ao Sol, ao fogo ou ao abraço. Como exemplo de espírito que é servo e senhor temos o Sol que além de dominar os espíritos por mim enunciados, ele é dominado por espíritos maiores como por exemplo o espírito de Estrela. Todos que ignoram essa regra de nossa linguagem nunca foram capazes de dominar grandes espíritos.
  Para aqueles que conseguiram a proeza de não compreender o que agora expus, é suficiente meditar sobre a sexta regra de Descartes.
  
[trecho removido por não acrescentar ao tema, apenas uma reflexão do método exposto como modelo para alcançar um espírito último e universal]
  Apesar de tudo o que foi dito, há questões que devemos atentar, uma é que um mesmo espírito pode usar inúmeras imagens para se manifestar, por exemplo o espírito da Justiça que pode se mostrar por meio da palavra escrita, falada, por ideogramas como é o caso da balança ou até mesmo sob a casca de uma deusa ou estátua, embora todas essas roupagens sejam diferentes, são passíveis de serem tomadas por um mesmo espírito. A segunda questão é que uma mesma roupagem pode ser dividida por inúmeros espíritos, como é um caso de um mesmo símbolo tem diferentes significados, como é o caso por exemplo da cruz que pode ser habitada pelo espírito de Cristo, com os quatro elementos da física antiga, com o simples cruzar de retas dos geômetras e até mesmo com o espírito da tortura talvez tenha atormentado homens de um passado distante. Dito isso concluo que um mesmo espírito não usa apenas uma mesma vestimenta e a mesma vestimenta não é usada por apenas um espírito. Sendo assim o ocultista hábil não julgará o espírito pela sua roupa, ele mostrará-se clarividente e verá através das aparências, isso se torna fácil empregando os saberes aqui expostos, pois esses espíritos costumam andar acompanhados de seus servos e é através deles que iremos identifica-los, é como dirá os populares "me diga com quem andas e te direi quem és".
  Compreendendo isso caro leitor, rogo-lhe pelo bom senso para que não copie as ações daqueles que falam mais do que sabem, como em sua maioria fazem os que se ocupam do comércio e da glória vã, pois devemos saber que o ocultista difere do copista, desse modo quando um estranho vier lhe oferecer um símbolo e lhe pedir para que seu espírito seja desvelado, cuide para não precipitar-se, com efeito uma mesma casca nem sempre terá um mesmo espírito. Desse modo, quando um Ankh for apresentado não se apresse em apontar um determinado espírito como seu hospedeiro, primeiro questione onde tal símbolo se inseri[...], se o interlocutor não for capaz de lhe informar isso e lhe passar somente o símbolo solitário deve-se então dizer-lhe a verdade, ou seja, que o símbolo é uma casca oca(um não-símbolo), ou então instrua-o para que possa por conta própria encontrar o espírito que ali repousa, com efeito, embora o símbolo seja o mesmo, o espírito em seu interior não será idêntico quando for observado dentro da mitologia egípcia e de uma linha new-age. Cabe então o ocultista investigar o inaparente(espírito) e torna-lo aparente, aqueles que se ocupam somente da vestimenta sem ocupar-se devidamente do espírito não são ocultistas.
  Devemos falar ainda de espíritos irmãos que podem vestir-se dos mesmos símbolos, partilharem entre si inúmeros servidores e terem ainda o mesmo nome(que é também um símbolo), não atoa que temos vários espíritos diferentes sendo tomados pelos desatentos como iguais. Podemos citar por exemplo os espíritos que atendem pelo nome de justiça, com efeito não há um único espírito para a justiça que seja universalmente usual, há inúmeras noções da mesma, partilhando os mesmos servidores, mas diferenciando-se na medida que os servidores divergem.
[...]




III 
  Nessa minha última investigação, me parece demasiado necessário tratar de assuntos mais simples antes de prosseguir nestes que aparentam ser tão complexos e que muito exigem de meu frágil raciocínio.
  Quando pensamos em magia, entidades, símbolos e coisas semelhantes, parecemos ignorar algo relativamente simples como a linguagem. Farei uma breve exposição sobre o tema sem objetivo de alto aprofundamento, apenas como modo de dar ao leitor uma pequena lâmpada para que possa vislumbrar o caminho que estou tecendo sem correr o risco de se perder.
  Alan Moore disse certa vez em um de seus documentários, que um livro de magia é um livro de linguagens. Embora eu já possuísse essa noção há alguns anos, foi só recentemente ao ver tal afirmação, que as peças soltas em minha mente pareceram criar vida, e buscar umas as outras de modo a formar uma peça única. Com efeito todo nosso pensamento se dá em linguagem, eu diria com certo temor que todo nosso pensamento é feito em enunciados. Por exemplo, se desejo pegar algo sobre a mesa, dou a ordem ao meu corpo como enunciado, mesmo que me esqueça em seguida de ter feito, assim como quando digito esse texto penso cada enunciado segundos antes de escrevê-los. Usando esse raciocínio quando penso espíritos e quando analiso os enunciados sobre o mesmo, percebo está constantemente preso ao enunciados e aos pseudo-enunciados. Sim todo enunciado, como já lhe diz o próprio nome, deve enunciar ou dizer alguma coisa, porém muito do que dizemos acerca de questões metafísicas não são capazes de dizer algo, e sempre que nos esforçamos para falar do além mundo de forma clara, acabamos por falar do mundo.
  Quando por exemplo falamos de Deus, sempre falamos do mundo e de nossas experiências do mundo, se digo por exemplo “Deus é misericordioso” só posso compreender isso por ter a experiência em primeira ou segunda pessoa de ações ditas misericordiosas, sendo que a mesma se dá no mundo(com efeito se é misericordioso em um tempo e  espaço). Se digo ainda que Deus é onisciente, mesmo que eu não tenha a onisciência no mundo, eu possuo a ciência e tudo que preciso fazer é pensar essa mesma ciência em um extremo. O mesmo se daria com o fato de eu ter uma formiga no mundo, mas não ter no mundo uma formiga-castor-gigante, mas poderia facilmente pensar uma por ter em minha mente a ideia de formiga, de castor e de grandeza. Porém talvez a frase que melhor se aproxime de um pensamento justo sobre Deus seja “Deus é”, porém essa frase é muito pouco dedutível, podemos analisa-la de inúmeras maneiras e sempre que fizer isso recorrerei ao mundo. Segundo a tradição enquanto possuir um corpo, não poderei pensar Deus ou qualquer coisa de cunho além-mundo.
  Ainda falando daquilo que pode ou não ser pensado, quando digo “Deus é misericordioso” será que posso compreender de fato o que isso significa? Analisemos a frase, o que posso dizer sobre Deus sem submetê-lo ao mundo? A Hermética dirá que Deus é indizível, icgnoscível e parece ser impossível afastar esse pensamento, assim sendo, tentemos falar da misericórdia, podemos falar dela? Será a misericórdia, Justiça, o Bem e outras coisas atribuídas a Deus e as ações de alguns homens, pensáveis? E o que é a justiça ou a misericórdia? Podemos dar uma explicação sem recorrer a exemplos(mundo) ou que abarque tudo que é justo ou misericordioso? Essas questões morais são tão metafísicas, ao meu ver, quanto Deus. Então sobre tais temas abandono e continuo a minha investigação sobre a linguagem.
  Voltando a afirmativa de Moore, e à compreensão de certas ideias não podem ser ditas, mas apenas mostradas por exemplos( justamente por não pertencerem ao mundo precisamos de algo que lembre por semelhança ou analogia) que parece desvelar-se a nós o funcionamento das ritualísticas primitivas e visão espiritualistas que perduram até os dias atuais. Grande era Atenas, onde os homens eram reconhecidos por sua sabedoria, ou até queriam ser sábios. Mas como podiam representar essa sabedoria? como os espartanos poderiam representar a guerra? Como poderiam representar o amor? Talvez os poetas creram que com seus cantos resolveram esse problema, talvez Platão creu resolver, talvez ainda haja alguém que acredite que possamos dizer a justiça, a liberdade ou o amor sem necessitar recorrer a exemplos ou poesias.
  O que é um ritual se não uma soma de enunciados que visam ao final chegar a uma conclusão? Quando o adolescente que compra os almanaques com receitas mágicas desenha sob si um círculo, e sobre si coloca uma pena de Pavão tentando puxar para si toda a ideia de beleza que aquela pena aos seus olhos carrega o que ele está fazendo, se na montando materialmente uma cadeia de enunciados, tal como em encantamento mudo? Ou os atenienses que alimentavam e usavam corujas em seus cerimoniais a fim de se tornarem mais sábios? Ou até mesmo os nordestinos brasileiros que matariam essas mesmas corujas se pudessem, a fim de espantar a morte?
  Objetos não carregam ideias, a coruja leva a esperança de sabedoria a quem dela espera a sabedoria tal como leva o temor a morte a todos os nossos vizinhos do interior do nordeste que ouvem seu piar a noite. Os objetos em nossos rituais são enunciados, são ideias, afirmações transformadas em símbolos talvez, para educar os que eram desfavorecidos intelectualmente e que lotavam os templos e seus sábios com problemas.    Como ensinar a quem está sempre ocupado com o trabalho braçal ou logístico as deficiências da linguagem e a busca de um poder não imediato, um conhecimento reflexivo? “Ensinemo-los nossos saberes, mas sejamos didáticos, dissemo-los que devem buscar a justiça e façamos dela uma deusa a sempre vigiá-los. Demonstremos como transmutamos nosso espírito, mas de modo que possam ao seu modo acompanhar, façamos objetos, imagens e até mesmo usemos drogas para auxiliar espíritos tão incapazes” Assim creio pensaram os antigos quando divulgaram seus saberes aos círculos externos, e assim ainda pensamos hoje, ainda falamos com Atenas e ainda tememos os daimons.

  Onde fica então esse mundo espiritual se não em nós mesmos? O que são todos esses espíritos se não uma manifestação do que temos dificuldade de traduzir sobre o mundo e sobre nós? O que é toda a ritualística se não um modo primitivo e falho de desvelar aquilo que nós ocultamos? Ora se compreendermos esses espíritos, esses Samael, Asmodeus, Atenas, Jesus e tantos outros em nós mesmos, será que precisaremos dessas vestimentas ultrapassadas e de significados perdidos no tempo?
  O que é um banimento, se não uma teatralização física do que queremos nos livrar em nossa mente? Imaginamos o punhal ameaçando nossos medos, imaginamos a água lavando nossos temores. O que são os ataques espirituais se não a ideia que não pode ser facilmente traduzida travestida de símbolos e deuses? Para que havemos de querer um mundo espiritual se já temos um mundo grande e desconhecido em nosso próprio espírito?
  Não quero por meio desse texto afirmar nada a vocês, apenas alfineta-los e despertar uma ou outra reflexão, de modo a quebrar os grilhões que lhes prendem tão fortemente as tradições e aos maus poetas.

 II
   Analisemos um texto poético para a partir dele tratarmos sobre a questão dos espíritos e da evocação;
 
Era mais ou menos duas horas da manhã de um sábado. Lord Vincus estava em seu quarto meditando, e os únicos sons que se ouvia era o de cantos gregorianos que eram gerados pelo seu computador, mas que pareciam sair de todas as paredes.
  O jovem magista deitou-se de barriga para cima e então algo lhe ocorreu. Estava dormindo e ao mesmo tempo consciente de tudo ao redor.
Primeiramente sentiu um grande peso sobre seu corpo que lhe esmagava o espírito, conforme lutava para levantar o peso migrava paras as partes que continuavam na cama como a perna e a cintura, quando finalmente levantou-se completamente, contemplou sua própria imagem inerte, e em um determinado momento o corpo que a pouco utilizava já não lhe interessava mais.
  >> Fechei os olhos, desejei visitar os montes onde um velho amigo habitava, e ao abrir os olhos, eu lá estava.
  O chão de pedra era cortado por fios d’água cristalinos, toda a água partia de um único local, uma caverna mais adiante, o sol brilhava no alto de um céu alaranjado ornado de duas luas, o clima era muito agradável.
Ao me aproximar da caverna ergui as mãos e evoquei a chave vincuniana sob meus pés, o símbolo brilhou forte em tons de verde, e foi então que declamei o encantamento sagrado.
Um grande rugido foi lançado para fora da caverna, este som embora assustador, fez meu coração expandir-se em força e vontade. Decidi entrar, lá dentro estava muito escuro, e ao chegar a um determinado ponto, dois olhos vermelhos muito brilhantes iluminaram o local. O dono desses faróis era um enorme réptil coberto por escamas verdes reluzentes, o pescoço e as costas possuíam ossos afiados brotando sem ordem, suas asas estavam abertas, o que lhe deixava ainda maior, e de sua boca lotada de dentes escapava uma fumaça acinzentada, que por vezes encobria seus bigodes de carpa.
  Coloquei-me à frente da fera, que aparentemente não demonstrava nenhum raciocínio, mas sua imagem despertava um misto de respeito e serenidade. Estando diante do dragão, desejei olhar através dos olhos dele; e assim ocorreu, ao invés de vê-lo, via a mim mesmo. Não como costumo ver as coisas, mas de alguma forma também enxergava com o olfato.
   Eu via um humanoide, muito vermelho e brilhante, possuía um cheiro metálico que me abria o apetite, rapidamente deixei a visão do dragão e voltei a mim.<<
Espigueiro: Há quanto tempo não lhe vejo, e não ouço aquela evocação sem nenhuma beleza ou harmonia.
Lord Vincus: Ora Esmeraldino, se esquece de que eu era ainda jovem quando compus aquilo?
Espigueiro: Você ainda é jovem Lord Vincus, jovem e tolo, mas dentre a maioria dos humanos, ser seu guia não é uma opção tão desagradável.
Lord Vincus: Vejo que seu bom humor continua intacto, mesmo depois de um ano sem minhas visitas.
Espigueiro: Tenho vida muito longa em relação aos seres mais jovens, um ano terrestre não é nem de longe uma grande espera, mas em relação ao período de visitas que você costumava fazer, sim, faz muito tempo.
Lord Vincus: Não vamos ficar jogando conversa fora, não sei quanto tempo conseguirei permanecer separado do meu corpo denso, então vamos ao que interessa.
Espigueiro: O que deseja Lord Vincus, pelo espírito, apreender?
Lord Vincus: Quero que me ajude a melhorar minhas habilidades e conhecimentos.
Espigueiro: Até que suas habilidades sejam consideradas dignas de serem chamadas assim, levará muito tempo e será muito trabalhoso, mas posso ajudá-lo a seguir por esta via meu jovem pupilo.
Lord Vincus: Por onde começo guardião?
Espigueiro: Você precisa aprender muito, e há condições não suficientes, mas necessárias que está ignorando. Comece revendo seus apetites, pois muito permanece em ti daquilo que constitui as bestas, e disto devia se envergonhar. Cuide também de teu intelecto, que embora tenha feito bom avanço, ainda continua rudimentar, estude a natureza, pois conhecendo o anjo alcançará o arcanjo.
  Treine Lord Vincus, treine como se uma batalha iminente estivesse à tua espera, tenha-se sempre atrasado, esteja sempre a exercitar a guerra.
  Afaste-se dos vícios que drogam o cérebro, dos excessivos vapores da carne que embebedam o espírito, e que sempre nos deixam temerosos quanto à nossa imagem perante os iguais e superiores, pois o Bem ou aquilo que se faz de boa fé, não envergonham a Alma.
  Não bastam à saúde e o intelecto em ato para a eudaemonia, mas as coisas que são vergonhosas ao espírito devem ser evitadas, aquelas coisas comum à mente humana, como os vícios do corpo e tudo aquilo que choca os espíritos dos viventes. Pois a eudaemonia é egoísta, não deve ser feita à custa de outros ou visando-os.
  Pois apreende agora meu filho, antes que seu corpo pereça e teu espírito se esqueça, pois é tendência do espírito tornar-se esquecidiço, como uma criança traumatizada, que se esquece de suas mazelas e substitui suas memórias por inúmeros símbolos e manifestações de seu passado, sejam de forma dolorosa ou não dolorosa.
  >> Minha projeção passou a oscilar, minha visão foi tornando-se turva, mas meus supra sentidos foram brevemente recuperados.<<
Espigueiro: Teu corpo o chama, ainda está intoxicado de teus maus costumes, vejo que não poderás mais ficar aqui por muito tempo.
Lord Vincus: Oh velho dragão, me ensine a ser virtuoso e cheio de sabedoria.
Espigueiro: Primeiro precisa limpar teu espírito, e para isso, lhe ensinarei o fogo esmeraldino.
 

  >> A enorme fera inspirou fundo e soltou seu hálito sobre mim, fui tomado por uma chama esverdeada, que fez meu coração expandir-se ao ponto de parecer explodir.
  Nesse momento, eu parecia estar ciente do que deveria fazer, levantei os braços, respirei profundamente, e quando finalmente expirei, levei do meu coração uma energia que misturava coragem, amor e determinação para a palma de minhas mãos, me senti poderoso enquanto a energia me subia pelos braços e minavam das minhas mãos derramando um líquido em chamas, de cor verde sobre todo o meu corpo, a chama descia pela minha pele e ao tocar o chão voltava a subir, senti todo o peso que me corrompia o espírito desprender-se com leveza e misturar-se com o ar.<<
 
 Espigueiro: Leve este exercício contigo, um exercício simples, indigno daqueles que se são grandes, mas para um jovem como tu, é de grande valia, use-o para purificar-se, para purificar tua casa e para purificar tuas ferramentas... Como prova de nossa identificação leve esta última pérola com você:
“Oh Humanos perecíveis, embriagados pelo vinho sem mistura da ignorância, cuja realidade limita-se aos olhos sensíveis, e quando pior, a fé não é posta sob a razão. Oh, corais humanos, despertai, pois o sofrimento desmedido e o não zelo pelo intelecto adoece a vossa alma. Oh, pobres sentimentalistas, 'ofensíveis' e efeminados, pobres e fracos, olhai no espelho à sombra da Magnificência, à sombra Demiúrgica, ansiosa por liberdade e respeito. Não matem o homem e a natureza por idealismo, idealizem um homem melhor de forma não destrutiva. Que verdades possuem aqueles que ainda sofrem? Que bens podem oferecer, que já não ofereceram a si mesmos? Crescei e multiplicai seus conhecimentos e horizontes, pois não só de pão vive o homem, já que este não é só corpo, é intelecto também, e esta parte queima de desejo pelo conhecimento."
>> Após calar-se, o dragão expeliu uma onda de fogo sobre mim, fui impulsionado rapidamente de volta, e quando voltei, foi como tivesse saltado de uma grande altura que ao bater no chão, fez meu corpo parecer subir alguns centímetros.
Eu estava mais leve, momentaneamente me sentia mais leve, como se a chama do dragão tivesse clareado e aquecido meu espírito.<<”

(Lord Vincus,Viajem ao dragão esmeraldino, A Casa-ocultismo, 2012)
  O autor usa-se da liberdade poética, mística para transmitir uma ideia moral, espiritualista e até mesmo magicista. Apesar de ser um texto para um público mais jovem, muito pode ser extraído do mesmo, se bem analisado.
   É narrado nesse texto em um primeiro momento, um exercício meditativo e a partir dele a suspensão da consciência para algo que não aparenta ser o mundo natural do personagem
 “o sol brilhava no alto de um céu alaranjado ornado de duas luas, o clima era muito agradável.”
  Um leitor mais afoito, creria rapidamente que o mundo descrito de fato existe, ou pior, não seria capaz nem ao menos de alcançar o que o texto de fato traz, daria atenção apenas às insinuações de projeções ou sobre um dragão falante. Tomaria rapidamente o texto como verdadeiro, não o analisaria, não de fato o leria.
   O que podemos inferir do texto, se ousarmos desvelar o que não é facilmente compreendido? O texto escrito possui somente a ideia de uma projeção, um dragão e um mundo estranho a oferecer? Bem parece que apenas análises superficiais parecem ser capazes de fazer os muitos que se dizem ocultista, ao menos, é isso que se torna evidente quando se propõe a comentar e divulgar sobre assuntos diversos seja sobre mitos, religiões ou até mesmo ao conjunto de textos da hermética.
   Voltando ao texto citado(pois é mais fácil), o autor tem por objetivo pregar uma visão espiritualista onde os vício do corpo supostamente atrapalham o desenvolvimento do espírito, logo atrapalha o sujeito enquanto ocultista ou magicista, e que tais vícios e dificuldades, acabam por ser culpa do próprio sujeito. Após um sermão dado pelo Dragão(que aqui faz o papel de mentor) ele lhe ensina uma técnica totalmente voltada a projeção de sensações para a purificação e banimento.
   As questões que devemos levantar são; como esse autor chegou à técnica de purificação?(supondo que não lhe fora revelada por um espírito) Como sabe que ela é de fato eficaz? Como saber que a descrição de um mundo espiritual, de modo geral é correta?
  Vejamos de onde partem as teorias sobres os espíritos e o além-mundo. Toda teoria desse gênero, sem dúvida parece partir de três modos possíveis, quando não nos referimos a comentadores. Parecem partir de revelação espiritual, dedução racional ou criação poética.
  A revelação espiritual sobre os espíritos e seu mundo é a mais comum de se encontrar na literatura, e que a mais deve ser rejeitada pelos ocultistas. Muito embora afirmem ser essa minha afirmação absurda, devemos questionar até que ponto a revelação espiritual de um terceiro é válida, uma vez que esse terceiro pode na melhor das hipóteses ser um doente mental e na pior das hipóteses o espírito pode ter lhe enganado sobre tudo que lhe fora revelado.
  O modo racional muitas vezes é ligado a revelação espiritual. Não era incomum entre os pensadores do medievo, tentar provar o que era dito pelos primeiros evangelistas e suas revelações por meio da razão(coisa que muito observamos na escolástica), não sem motivo que era muito comum fazer uma leitura bíblica utilizando-se de pensamentos aristotélicos ou platônicos.
  O ultimo modo, muito comum, é o uso de termos religiosos para tornar o pensamento mais didático para a massa, mais palatável, ou até mesmo usa-se da poesia mística por uma simples questão estética. O problema deste modo é que a massa que ascende às tradições acabam por tomar boa parte dos círculos internos, ficam presos a visão poética e acabam por passa-la a frente, tornando o ocultismo em um ocultismo de facebook, um antro de alucinados e maus poetas.
  Dentro dos três modos, parece não haver nenhum que seja confiável, uma vez que o primeiro temos que ficar a mercê da crença na honestidade de um espírito além da crença na saúde mental daquele em que algo foi revelado. No segundo modo não se usa do raciocínio para chegar a uma conclusão, mas usa-se da conclusão para montar raciocínios o que facilmente nos leva ao engano (embora seja o modo mais seguro) e o último é falso desde o início. Esse problema não é observado por mim, já fora observado pelos bons ocultistas há muito tempo, e três soluções foram dadas para tentar resolvê-lo, as apresentarei agora;
  A primeira diz que o homem é capaz de sair de seu próprio corpo, e uma vez fazendo de si mesmo um espírito, pode por si mesmo vislumbrar o mudo espiritual e aprender sobre ele. Esse método que é muito querido entre os adolescentes e os espiritualistas de facebook(a diferença entre um e outro é mínima) é assaz problemático, como mostrarei agora. O que me garante que a projeção não é uma construção mental do sujeito, tal como ocorre aos moradores dos manicômios, sendo que a diferença entre um e outro é o desejo do delírio? Como diferenciar a projeção de um sonho? Com efeito, não é incomum enquanto sonhamos, julgarmos-nos acordados e no mundo, e se somos enganados enquanto sonhamos (e quando acordados), que garantia temos que em projeção(caso não seja um sonho) estamos de fato vendo o mundo espiritual ou não estamos criando-o ou nos enganando de outro modo?
  O segundo modo desenvolvido pelos neo-hermetistas é a partir do principio de correspondência ou da analogia hermética, ou seja, observando o mundo material(ou médio) podemos por analogia compreender o mundo espiritual, já que ambos possuem um mesmo criador e são regidos por leis mesmas(que diferem em grau de execução). Esse método é mais racional que o primeiro, e mais provável de nos levar algum conhecimento de fato.
  O último modo, e o meu preferido, é a rejeição completa de um além mundo, e a compreensão de que mesmo que esse exista, não pode ser alcançado pelo homem em vida(Como já dizia Platão, Tomás de Aquino e outros) e por isso qualquer esforço para alcança-lo é inútil, cabendo ao ocultista então ocupar-se do mundo e do que o mundo vela, sem gastar sua vida em busca de outros. Dentro dessa ótica ainda, os autores antigos que possuíam forte influência do orfismo, criam que o mundo espiritual era transcendente, de modo que se levássemos uma vida de investigações e reflexões, nossa alma acostumar-se-ia ao saber e quando morresse-mos poderíamos transcender e desvelar o mundo espiritual(mas só após a morte).
   *OBS; Há ainda o modelo cabalístico, mas por ser um ignorante do tema e não possuir meios de estudar a cabbalah em fontes confiáveis e em seu idioma materno, irei me abster sobre a mesma.

  Partindo disso, toda experiência, toda literatura e toda afirmação sobre espíritos, que cansam de se contradizer a depender de quem fale disso, parece perder o sentido de ser discutido. Porém, ainda temos um longo caminho a percorrer nesse texto e não devo me cansar agora, ainda me resta dar um último parecer sobre espíritos e falar melhor sobre banimentos.
I

      Graça a supremacia do imediatismo contemporâneo, onde com recursos do mundo globalizado as informações já nos chegam prontas, não é incomum, entre os mais jovens a crença de que por ter lido dois ou três artigos sobre determinado assunto, ter seguido duas ou três receitas delirantes e participar de um grupo de facebook de que são grandes magos ou especialistas nesse ou naquele assunto. Talvez sejam, mas a chance de que isso seja verdadeiro é tão mínima que é incrível que tantos homens feitos aceitem tais saberes que são distribuídos tão facilmente.
   Antes de entrar no assunto de nosso título, creio ser necessário tratar o mínimo possível sobre as fontes e os modos de pesquisa e de que modo podemos evitar sermos enganados por textos, pessoas ou pelas experiências.
   Devemos atentar que o fato algo está escrito em um livro, não significa que por isso ele seja verdadeiro, e devemos saber como ocultistas, que sempre que não pudermos alcançar a verdade em uma investigação, devemos adotar sempre o raciocínio mais provável. Ler em um livro que espíritos existem ou que determinado ritual lhe torna especial, não faz com que espíritos existam ou que você irá se tornar especial. Os textos devem então serem analisados em um primeiro nível, que é o argumentativo. Um texto que apresenta razões insuficientes para suas afirmativas, que se contradizem ou que não apresentam razão nenhuma sendo apenas uma cadeia de afirmações ou receitas deve ser tomado com todo cuidado por um ocultista, e talvez, até rejeitado. Uma vez analisada a didática do texto(em geral, no que diz respeito aos comentadores de ocultismo e textos receitas a didática é péssima) deve-se analisar seus resultados práticos.
   Antes de falar de prática trarei elementos que devemos atentar na leitura de um texto ocultista para saber se ele é mais uma obra febril ou religiosa, ou perceber ainda se é mais uma das muitas obras de mercadores exotéricos.
  Não é difícil escritos de magistas e poetas místicos(além de um grande número de adolescentes e senhoras solteiras no facebook) a afirmação da existência de criaturas fantásticas e de sua estreita comunicação ou até domínio delas, de modo a não poderem dar dados mínimos que sustente essas afirmações, e sempre se mostrarem demasiado agressivos quando uma mente mais curiosa questiona a veracidade dessas afirmações. Uma vez que cabe ao ocultista a busca do saber e não a mera credulidade que é dada aos cidadãos servis, não faz muito sentido sentir-se ofendido, ao ser questionado por um.
  Se um sujeito traz uma ideia, mas não é capaz de defendê-la é quase certo que tudo que ele afirma tem como base experiências mal refletidas que por sua vez levaram-no quase que a força a uma conclusão problemática. Tal como uma criança que após ver um filme de terror escondido de seus pais começa a ver(experiência) monstros e por isso conclui rapidamente que é perseguida, também não é incomum entre os que iniciaram a investigação sobre o ocultismo ou o espiritualismo, acabarem por ficar espantadas pela qualidade diferente de informações que apreendem e por isso acabam por acreditar serem especiais espiritualmente a ponto de comandar seres supraterrestres ou até mesmo se tornarem amigos deles, podendo essas novas mentes acreditarem que estão na presença de gnomos, fadas, demônios ou qualquer outra criatura que foi mencionada nos livros dos poetas que se dizem ocultistas.
   Devemos atentar então que a experiência é enganosa, seja experiências feitas por nossos sentidos, sejam experiências emocionais ou mentais. Citarei modos simples de como somos constantemente enganados e de como constantemente enganamos a nós mesmos.
 Não era incomum aos antigos, por experienciar que a terra onde pisavam era parada, a conclusão de que o nosso mundo(planeta) estava fixo no centro do universo(que igualmente se limitava até as estrelas que eles podiam ver) e tinha os astros girando em torno de nós. Só quando a teoria do heliocentrismo foi trazida e mais tarde comprovada matematicamente, que o homem moderno(fim do renascimento) se deu conta de que seus sentidos lhes enganaram sobre o mundo. Outro exemplo de como os sentidos nos engana é a observação de sermos seguidos pela Lua e pelas Estrelas em um passeio noturno. Não me surpreenderia se um homem selvagem viesse a crer por isso, que tanto a Lua como as Estrelas são espíritos guardiões.
  Há exemplos simples de como somos enganados por nossas emoções e intuições, seja quando cremos que amamos algo e percebemos não amar quando o temos ou quando acreditamos ser amados sem sermos. As intuições, do mesmo modo, nos enganam rapidamente quando por exemplo, intuímos rapidamente um resultado para determinado cálculo e por ter ignorado algum sinal, percebemos ter errado.
  Visto que não podemos confiar no que comumente confiamos, já que o bom senso manda não confiar em quem costuma nos enganar, me parece ser interessante oferecer um método que prive os iniciantes a não caírem em abismos tão profundos, que por passar tanto tempo no escuro acabem por crer estar acompanhados por quem não está lá.

   Cumpre crer que sempre que algo se nos apresenta, que quando queremos extrair dele alguma verdade, que devemos analisa-lo minuciosamente, de modo que possamos antes de escolher uma conclusão qualquer, observar todas as conclusões possíveis, e conforme avancemos em nossas investigações possamos pouco a pouco descartar tais conclusões até que reste o menor número delas. Assim, só depois de ter decomposto tudo aquilo que analisamos, separamos o mais fácil o que do que é complexo, e quando tiver nos certificado de que compreendemos o que é mais fácil, podermos através disso passar para o que é mais difícil, uma vez que a compreensão do que era mais simples ajudará a revelar o que é complexo, e a partir disso por organizado em séries tudo o que analisamos. Assim não só teremos mais facilidade de alçar algum conhecimento sobre o problema apresentado, como teremos alcançado verdades sobre várias coisas além do problema proposto e por ter separado tudo em série do mais simples ao mais complexo, poderemos sempre recorrer a essas investigações quando nos falhar a memória.

"Praebere Sitientibus"
Lord Vincus
2013

  O objetivo do ocultista, como já foi dito¹, é desvelar o mundo e conhecer o espírito humano para que através da aplicação desses conhecimentos, talvez, possa alcançar o estado de felicidade.
  Atualmente muitos dos ditos ocultistas, que na verdade mais parecem arteiros, creem que através da atividade de imitação poderão alcançar algum conhecimento, não podem, e se o conseguirem será por extraordinária fortuna, tal como um sem-teto que todos os dias visita determinada praça quase que religiosamente, e depois de um tempo, acaba por encontrar um tesouro perdido por algum viajante.
  Embora a arte seja necessária ferramenta de desvelo ou até mesmo de conforto para o ocultista, ela não é suficiente, além dela se faz necessário o uso da filosofia e da geometria. Sem essas a arte pode levar o ocultista ao caminho oposto no qual ele pretende seguir, ao invés de desvelar, acaba enrolado em um número maior de véus, crédulo de que descobriu alguma verdade quando está a cada prática afundando na lama fétida do poço da pseudo-trascêndencia.
  Alguns exemplos simples do que é dito no parágrafo acima é o motivo de orgulho dos ditos teurgos², sua dita capacidade de ter experiências com entidades metafísicas, onde cada um faz seus rituais tais como mandam os livros que esses acreditam serem velhos, seguem a risca o que está escrito, alheios ao porque de tais exigências colocando o termo energia em cada buraco de sua própria ignorância, pensam ser poderosos por manipular ou comunicar-se com tais criaturas e ficam orgulhosos de seus resultados.        
  No final, nada foi acrescentado ao conhecimento humano, teurgos diferentes acabam por ter resultados diferentes ou até mesmo opostos de suas experiências de um mesmo ritual, cada um assume sua própria experiência como verdadeira, nada lhes é desvelado e são incapazes de dizer claramente suas conclusões, limitam-se ao que sentem tal como uma criança que sai para passear a noite e em sua inocência crê que monstros lhe observam nos escuros becos ou até mesmo que as estrelas lhe persegue, como é comum ocorrer com os desavisados que se rendem as sensações do corpo ou do espírito ignorando o quão esses podem ser enganosos.

  São esses que espalham a erva daninha de um ocultismo absurdo, cheios de fantasias. Tal desserviço ao intelecto não é culpa desse grupo despreparado, se assim agem é por não terem sido instruídos ainda na juventude, por terem sido educados a crer no imediatismo contemporâneo ou nas maravilhas de um além-mundo. Cabe a ao Ocultista tomar para si o papel de educador, não ser aquele que dá respostas ou conclusões, mas aquele que mostra o caminho para as cinco esferas do conhecimento puro.


  Nesse texto não pretendo comentar sobre o que é o ocultismo das massas ou o que ele deveria ser. Tal desperdício de minha vida já foi feito suficientemente em outro texto¹. Desejo tratar aqui do ocultismo dentro do meu sistema, seu método, seu objetivo e suas divisões.
   O sistema vincuniano entende o ocultista não como aquele que esconde algo, que separa, mas aquele que busca o que está oculto e o desvela. O ocultista então é o sujeito que mergulha nas sombras para extrair seus tesouros. Muitas das antigas ocupações do ocultismo são ocupações hoje das ciências empíricas ou das psicologias. Muitos remédios que usamos hoje possuem por base pesquisas de alquimistas, muitas afirmações da psicologia e da moderna psicanálise já eram afirmações feitas pelo ocultismo e muitas afirmações que os físicos só começam a admitir agora já eram afirmações dos tempos dos fisiologos².
   Não tenho por pretensão também discutir a história do ocultismo, talvez faça isso em escritos posteriores, por hora apresento-lhes o que chamo de ocultismo vincuniano para que por vocês seja apreciado, criticado e se possível superado. O compromisso do ocultista deve ser com a busca do que é verdadeiro e de sua consciência de unidade, consciência esta é adquirida por meio de exercícios intelectuais e espirituais que podem estar ligados ou não a arte.
  O ocultista deve ser capaz de pensar o objeto de sua pesquisa e praticas claramente. Tudo que por ele é feito e descoberto deve ser também possível de ser comunicado, seja dizendo ou demonstrando, este deve ter como fim o conhecimento do todo e a educação de seus semelhantes, o ocultista deve ser um educador nato, afinal todo aquele que é capaz de compreender sem dificuldades determinado assunto é necessariamente também capaz de facilmente traduzi-lo, ser conhecedor e mau mestre é uma contradição. Aquele que pensa claramente também é capaz de dizer claramente. O sujeito que apoia seus estudos em sensações ou resultados obscuros não é ocultista.
  O ocultismo foi separado por mim em cinco partes, essa separação foi feita com o intuito de tornar mais clara a explicação para aqueles que não são familiarizados com o reto raciocínio. Os bons pesquisadores notarão que o número de divisões pode ser maior ou menor a depender do objetivo. O ocultismo foi dividido entre Filosofia, Fisiologia, Arte, Alquimia e Geometria. Explicarei cada um individualmente antes de partir para o fim do ocultismo.
  Entendo por filosofia, a capacidade de mostrar claramente o conteúdo de seu pensamento por meio da linguagem, estudando através dela mundo factual e valorativo além de ser a ciência que busca as causas primeiras. Dentro do ocultismo, cabe à filosofia estabelecer a ponte entre o subjetivo com o objetivo, estabelecer a comunicação entre sujeito e o ente, além de lhe ser dever também dar ao estudioso a capacidade de expressar-se claramente. A visão de um ocultista isolado e guardião de mistérios propagada por meio daqueles que nada tinham a dizer deve ser quebrada, o ocultista deve ser estudioso da arte de comunicar-se, deve compreender a nuances da linguagem e seus princípios para só então compreender o que o mundo lhe comunica. Este deve ser conhecedor do espírito humano, compreendendo seu funcionamento, estudando a razão, a memória, o prazer e o pensamento. Deve ser estudioso da arte dos discursos e do raciocínio reto4. Deve ser um bom professor.
  Entendo por fisiologia o estudo da natureza objetiva. O fisiologo é aquele que observa e investiga o mundo, através dessa observação tenta chegar por meios de juízos universais às leis que governam o mundo, e a partir delas compreender o Todo. O fisiologo se ocupa da química, física, biologia, astronomia e as demais ciências semelhantes. Só se pode tentar causar algo conscientemente ao mundo , compreendendo-o.
  Chamo de arte toda ação por meio de técnicas pré-determinadas. O artista é aquele que da a um pedregulho a forma de um elefante por meio de técnicas especificas. O artista é simplesmente aquele que aplica, que age, sem o conhecimento teórico ele é incapaz de ensinar ou até mesmo de desenvolver novos conhecimentos, um mero repetidor.
   Chamo de geômetra aquele que estuda as formas, o equilíbrio e os espaços. O geômetra é um matemático nato, não é possível qualquer aspiração ocultista sem o conhecimento desta ciência. Quando produzimos o discurso e bem medimos nossas palavras, de modo a dar ao texto o correto equilíbrio buscando as formas que melhor se encaixam nas proposições respeitando os limites do que é proposto, estamos fazendo geometria. O artista em sua técnica usa de artifícios de geometria, mesmo que não possua consciência disso. O ocultista é capaz de aplicar a geometria até mesmo em seus raciocínios de modo a chegar ao destino desejado.
  Entendo por alquimia o estudo dos estados e movimentos do mundo e do espírito³. O alquimista é aquele que é capaz a partir da filosofia, geometria e da fisiologia de desenvolver a arte.
   Aqueles que gostam de ser chamados magistas, que se apegam a parte prática como ajudante de pedreiros, encaixam-se na posição mais inferior do ocultismo e mais imediata, encaixam-se na esfera da Arte. Para ser um ocultista, deve-se participar de todas as esferas.
  O ocultista compreende o mundo como um corpo, uma unidade que deve ser desvelada, compreendendo o mundo, compreende-se a si mesmo e vice-versa. O objetivo ou fim dessa busca não pôde ser por mim determinado pelo simples fato de ainda não ter chegado a ele. Muitos dos antigos afirmarão que essa é a busca suprema e cujo fim não possui nenhum lucro que não a própria prática (um fim em si mesmo) e que a felicidade é o ganho não final, mas de enquanto se pratica.
    Embora a ciência moderna esteja ocupando o espaço que antes era do ocultista, há muito ainda a ser desvelado que não interessa aos acadêmicos, e entregar essas joias a eles pode sim significar um ganho para o conhecimento humano e para a humanidade. Posso trazer o exemplo de ocultistas que por séculos demonstram e aplicam a cura por imposição de mãos e desenvolver a arte e sua compreensão do fenômeno, não seria nenhuma perda para o ocultismo que a ciência tomasse posse dessa pratica e a utilizasse em hospitais, pelo contrário, seria um clara demonstração que uma área do conhecimento humano não acadêmica, pode muitas vezes chegar antes das áreas imediatistas.
 
Lord Vincus
Praebere Sitientibus”
2013








Notas:
2-     Estudiosos da natureza, também chamados de pré-socráticos.
3-     Mente e raciocínios.
4-      
“Cânone 33- Da reta racionalidade.

1-     Pensar racionalmente reto é refletir sobre o que é proposto.
2-     Refletir sobre o que o que é proposto se assemelha a investigação e a dúvida.
3-     Investigar é decompor o que se propõe e compreender sua natureza e o que lhe é dedutível.
4-     O alquimista raciocina de forma reta.
5-     A alquimia é baseada na decomposição e composição, Solve e Coagula.
6-     Deve-se decompor aquilo que lhe é apresentado, refletir suas partes, organizando-as dedutivelmente e assim recompô-la compreendendo se alguma parte lhe falta ou sobra.
7-     Da decomposição de algo, muito é revelado.
8-     Toda conclusão apresentada livre de investigação aparente, deve ser na medida do possível decomposta.
9-     Das partes chega-se ao Todo.
10- O homem comum ignora o principio de composição e decomposição.

11-O nada, nada cria”
(Cânones Vincunianos)

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