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Quadrinhos: Infantis ou não!?
- Irônico o-Culto (1)
Publicado por
Hugo Lemos
Irei expor, neste texto, algumas reflexões que considero relevantes para se poder pensar e trabalhar magia dentro de uma ótica Ocultista. Estas reflexões não tratarão da magia em si, mas sim tratarão sobre magia, sendo prévias a esta. Faço isso pois considero ser relevante entender sobre o que será trabalhado e como se trabalha isto antes de, de fato, iniciarem-se os trabalhos. Também não me preocuparei com os pormenores históricos, tampouco com os detalhes desnecessários para esta investigação, de forma que espero que entendam que deixo para outros momentos explorar mais a fundo o pensamento sobre magia no decorrer da história e de acordo com pensamentos de autores particulares. Faço isso de forma clara e consciente pois compreendo que embora isto possa enriquecer esta exposição, não lhe farão falta a priori, já que apresento aqui parte de um elixir completo, que com sorte tratará por completo a ignorância acerca do tema e findará de vez esta questão. Comecemos então:
Magia será encarada durante boa parte da história como uma prática (ou um conjunto de práticas) de "natureza desconhecida" que permitem feitos extraordinários. Em tempos primordiais era encarado como magia todo o conjunto da vida do indivíduo, que via suas ações ressoarem e imitarem planos divinos e vice-versa. A ética, enquanto objeto, é fruto desta perspectiva acerca da conduta do indivíduo como ato mágico, já que as pessoas que almejam a ética veem em seus atos uma manifestação mística de uma lei sagrada. Magia também será encarada, com certamente mais frequência e notoriedade, como o fruto de determinados ritos, práticas e etc, tal como uma dança tribal que pede a chuva, uma celebração que pede a determinados deuses uma boa colheita ou até mesmo o orgasmo, seguido de esquecimento de um determinado símbolo.
De uma forma ou de outra Magia sempre, de forma invariável e em toda sua história, teve, em suas diversas incarnações e perspectivas, em comum um aspecto: o Místico[1]. Magia sempre se relacionou com práticas para além das fronteiras do conhecido em suas respectivas épocas. Suas técnicas sempre estiveram para além da compreensão do povo médio, e seus efeitos sempre tiveram semelhança (na mente de muitos, senão todos) com o sobrenatural. A velha, ou o índio, que vivia na floresta e fazia chás, com ervas diversas e desconhecidas, que eram capazes de curar diversas enfermidades eram rotulados como sendo "bruxos", "feiticeiros" e outros adjetivos derrogatórios (oriundos de espíritos mais aflorados e menos tolerantes) por sua prática mágica de fazer o chá, e este, com suas propriedades místicas de cura e etc, eram taxados de magia. Muitos foram considerados de hereges e foram queimados por isso, em irônico contraste, aqueles que condenavam estes a fogueira acreditavam ardorosamente que se eles conversassem com uma entidade invisível em uma determinada posição esta entidade iria atender seus pedidos, certamente isto é muito menos místico e mágico do que aquilo que eles tão furiosamente repudiavam.
Da mesma forma, muitas práticas Mágicas, como o próprio uso de ervas para fins medicinais, foram, com o passar do tempo, desmistificadas e transformadas em técnicas de uso de outras áreas, como a medicina (no caso das ervas). Assim sendo, deixaram de lado seu apelo Mágico e tornaram-se coisa outra, de forma que torna-se evidente que a Magia é algo de natureza necessariamente mística. Me vem a mente a terceira lei de Clarke que diz "Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia." Ora, certamente que isso é correto! Afinal de contas, que diriam o povo de tempos antigos se vissem nossas criações contemporâneas? Um isqueiro? HEREGE! Uma caixa fina que passa imagens e sons diversos? BRUXO! E não duvido em nada que se lhes mostrássemos um smartphone nós seriamos certamente mandados para a fogueira. É então evidente que Magia é fundamentalmente místico, e da desmistificação das práticas mágicas podem ser obtidos maiores conhecimentos, técnicas e práticas que não mais serão Magia, mas sim coisas outras aplicadas por outras áreas.
Mas então é pertinente entender como se dá a magia. Embora diversos sistemas possam afirmar maneiras diferentes, razões diferentes e teorias diferentes sobre a natureza da ação mágica, alguns autores chegaram a uma linha comum, a qual eu acredito ser a mais clara e evidente, e, por essa razão, ótima para o Ocultismo. Eles afirmam, e eu parafraseio, que "Magia é a aplicação da Vontade sobre o mundo." A implicação dessa noção é rica, porém ainda não é ótima. Por meio da compreensão dessa frase podemos entender que Magia é um ato, uma ação, e que seu ator a orquestra para influenciar o mundo. "O mundo" aí é uma expressão assaz genérica, que pode trazer erros de má compreensão. Seria somente a dimensão física e material "o mundo"? A dimensão mental, dos pensamentos e sonhos, ainda parte "do mundo"? Se não forem, então teríamos que desconsiderar práticas tidas como Mágicas de mentalismo, onirismo, psiquismo e etc como não sendo de fato Magia. Seria "o plano astral" ou qualquer outra espécie de dimensão que o praticante de Magia parte "do mundo"? Se não forem também nos esbarraremos com uma barreira que separará determinadas práticas tidas como Mágicas com essa definição. Antes, acho que essa implicação "do mundo" implica no "mundo sensível", ou seja, naquilo que é percebido. Digo isso pelas razões seguintes: antes de mais nada não temos noção de quantas dimensões, planos e etc existem ou podem existir, de forma que estabelecer um ponto determinado me parece limitado e fadado ao fracasso. Segundo: me parece ridícula a noção de que se pode realizar um ato (tal como previamente acordado que Magia é, um ato) o qual almeja algo que não pode ser percebido, que não é conhecido, especialmente se considerarmos que Magia vai apelar ao que é místico, algo que por sua própria natureza é desconhecida, de forma que se este fosse o caso teríamos um ato que faz algo desconhecido e afeta algo que é igualmente desconhecido! Não, ao contrário, magia sempre vai afetar algo que nos é presente e conhecido no mundo (tal como o chá de ervas que curam doenças, o rito que busca causar chuvas, a cerimônia que faz com que a próxima colheita seja abundante, a "amarração" para provocar o amor em outra pessoa, etc), de forma que é ao que é conhecido que a Magia se debruça.
Ele também referencia a Vontade do ator, mas isso diz respeito a uma noção que é particular a determinados sistemas, então talvez seja mais interessante compreendermos o cerne da questão de forma a nos afastarmos de todas essas perspectivas particulares. Como vimos Magia é necessariamente algo de natureza mística, Vontade aí implicaria que o ator atua por meio de conhecimentos ou práticas de natureza igualmente místicas. Isso é ótimo pois subverte a necessidade de nos prendermos a uma ótica de um sistema sobre o que é Vontade e nos permite pensar com mais clareza.
Então temos que Magia seria um ato que busca afetar algo conhecido por meios místicos. Tendo isso em mente podemos provocar e testar o quão consistente é este conceito. Ora, se os meios não forem místicos, então eles serão conhecidos, e se assim forem estaremos trabalhando com uma técnica, e não com magia. Seremos farmacólogos ao fazermos chás com ervas, ao invés de "velhas bruxas da floresta", ou "sábios pajés". E se magia buscar afetar algo que é desconhecido, algo que não é só "místico" como também é por inteiro alheio a compreensão e percepção do seu ator? Ora, antes de mais nada como pode ele fazer algo sobre alguma coisa a qual ele sequer sabe que existe? Me parece paradoxal, de forma que é impensável se refletir sobre isso.
E assim obtemos dois princípios que regem o que seria magia e que jazem prévios aos próprios sistemas que tratam de magia. Esses princípios são:
Notas:
[1] - Místico: Mìstico diz respeito a parte do Universo que ainda é desconhecida. De "A Natureza, o dito "Sobrenatural" e o Místico": A grande questão acerca do que é chamado de "místico" é o fato dele ser uma faceta, uma parcela, de algo que é familiar, o Universo. A coisa, o Universo, é familiar, próxima, palpável, reconhecível, mas a Natureza do Universo, os aspectos intrínsecos e essenciais do Universo, não são por inteiro conhecidos. É à essa parcela da Natureza que é desconhecida que se refere o termo "místico".
Magia será encarada durante boa parte da história como uma prática (ou um conjunto de práticas) de "natureza desconhecida" que permitem feitos extraordinários. Em tempos primordiais era encarado como magia todo o conjunto da vida do indivíduo, que via suas ações ressoarem e imitarem planos divinos e vice-versa. A ética, enquanto objeto, é fruto desta perspectiva acerca da conduta do indivíduo como ato mágico, já que as pessoas que almejam a ética veem em seus atos uma manifestação mística de uma lei sagrada. Magia também será encarada, com certamente mais frequência e notoriedade, como o fruto de determinados ritos, práticas e etc, tal como uma dança tribal que pede a chuva, uma celebração que pede a determinados deuses uma boa colheita ou até mesmo o orgasmo, seguido de esquecimento de um determinado símbolo.
De uma forma ou de outra Magia sempre, de forma invariável e em toda sua história, teve, em suas diversas incarnações e perspectivas, em comum um aspecto: o Místico[1]. Magia sempre se relacionou com práticas para além das fronteiras do conhecido em suas respectivas épocas. Suas técnicas sempre estiveram para além da compreensão do povo médio, e seus efeitos sempre tiveram semelhança (na mente de muitos, senão todos) com o sobrenatural. A velha, ou o índio, que vivia na floresta e fazia chás, com ervas diversas e desconhecidas, que eram capazes de curar diversas enfermidades eram rotulados como sendo "bruxos", "feiticeiros" e outros adjetivos derrogatórios (oriundos de espíritos mais aflorados e menos tolerantes) por sua prática mágica de fazer o chá, e este, com suas propriedades místicas de cura e etc, eram taxados de magia. Muitos foram considerados de hereges e foram queimados por isso, em irônico contraste, aqueles que condenavam estes a fogueira acreditavam ardorosamente que se eles conversassem com uma entidade invisível em uma determinada posição esta entidade iria atender seus pedidos, certamente isto é muito menos místico e mágico do que aquilo que eles tão furiosamente repudiavam.
Da mesma forma, muitas práticas Mágicas, como o próprio uso de ervas para fins medicinais, foram, com o passar do tempo, desmistificadas e transformadas em técnicas de uso de outras áreas, como a medicina (no caso das ervas). Assim sendo, deixaram de lado seu apelo Mágico e tornaram-se coisa outra, de forma que torna-se evidente que a Magia é algo de natureza necessariamente mística. Me vem a mente a terceira lei de Clarke que diz "Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia." Ora, certamente que isso é correto! Afinal de contas, que diriam o povo de tempos antigos se vissem nossas criações contemporâneas? Um isqueiro? HEREGE! Uma caixa fina que passa imagens e sons diversos? BRUXO! E não duvido em nada que se lhes mostrássemos um smartphone nós seriamos certamente mandados para a fogueira. É então evidente que Magia é fundamentalmente místico, e da desmistificação das práticas mágicas podem ser obtidos maiores conhecimentos, técnicas e práticas que não mais serão Magia, mas sim coisas outras aplicadas por outras áreas.
Mas então é pertinente entender como se dá a magia. Embora diversos sistemas possam afirmar maneiras diferentes, razões diferentes e teorias diferentes sobre a natureza da ação mágica, alguns autores chegaram a uma linha comum, a qual eu acredito ser a mais clara e evidente, e, por essa razão, ótima para o Ocultismo. Eles afirmam, e eu parafraseio, que "Magia é a aplicação da Vontade sobre o mundo." A implicação dessa noção é rica, porém ainda não é ótima. Por meio da compreensão dessa frase podemos entender que Magia é um ato, uma ação, e que seu ator a orquestra para influenciar o mundo. "O mundo" aí é uma expressão assaz genérica, que pode trazer erros de má compreensão. Seria somente a dimensão física e material "o mundo"? A dimensão mental, dos pensamentos e sonhos, ainda parte "do mundo"? Se não forem, então teríamos que desconsiderar práticas tidas como Mágicas de mentalismo, onirismo, psiquismo e etc como não sendo de fato Magia. Seria "o plano astral" ou qualquer outra espécie de dimensão que o praticante de Magia parte "do mundo"? Se não forem também nos esbarraremos com uma barreira que separará determinadas práticas tidas como Mágicas com essa definição. Antes, acho que essa implicação "do mundo" implica no "mundo sensível", ou seja, naquilo que é percebido. Digo isso pelas razões seguintes: antes de mais nada não temos noção de quantas dimensões, planos e etc existem ou podem existir, de forma que estabelecer um ponto determinado me parece limitado e fadado ao fracasso. Segundo: me parece ridícula a noção de que se pode realizar um ato (tal como previamente acordado que Magia é, um ato) o qual almeja algo que não pode ser percebido, que não é conhecido, especialmente se considerarmos que Magia vai apelar ao que é místico, algo que por sua própria natureza é desconhecida, de forma que se este fosse o caso teríamos um ato que faz algo desconhecido e afeta algo que é igualmente desconhecido! Não, ao contrário, magia sempre vai afetar algo que nos é presente e conhecido no mundo (tal como o chá de ervas que curam doenças, o rito que busca causar chuvas, a cerimônia que faz com que a próxima colheita seja abundante, a "amarração" para provocar o amor em outra pessoa, etc), de forma que é ao que é conhecido que a Magia se debruça.
Ele também referencia a Vontade do ator, mas isso diz respeito a uma noção que é particular a determinados sistemas, então talvez seja mais interessante compreendermos o cerne da questão de forma a nos afastarmos de todas essas perspectivas particulares. Como vimos Magia é necessariamente algo de natureza mística, Vontade aí implicaria que o ator atua por meio de conhecimentos ou práticas de natureza igualmente místicas. Isso é ótimo pois subverte a necessidade de nos prendermos a uma ótica de um sistema sobre o que é Vontade e nos permite pensar com mais clareza.
Então temos que Magia seria um ato que busca afetar algo conhecido por meios místicos. Tendo isso em mente podemos provocar e testar o quão consistente é este conceito. Ora, se os meios não forem místicos, então eles serão conhecidos, e se assim forem estaremos trabalhando com uma técnica, e não com magia. Seremos farmacólogos ao fazermos chás com ervas, ao invés de "velhas bruxas da floresta", ou "sábios pajés". E se magia buscar afetar algo que é desconhecido, algo que não é só "místico" como também é por inteiro alheio a compreensão e percepção do seu ator? Ora, antes de mais nada como pode ele fazer algo sobre alguma coisa a qual ele sequer sabe que existe? Me parece paradoxal, de forma que é impensável se refletir sobre isso.
E assim obtemos dois princípios que regem o que seria magia e que jazem prévios aos próprios sistemas que tratam de magia. Esses princípios são:
- Magia é algo fundamentalmente místico. Ao se desmistificar a Magia ela se tornará uma técnica, ou prática, pertinente a coisas outras, mas não será mais Magia.
- Magia é o ato que busca afetar algo conhecido por meios místicos.
[1] - Místico: Mìstico diz respeito a parte do Universo que ainda é desconhecida. De "A Natureza, o dito "Sobrenatural" e o Místico": A grande questão acerca do que é chamado de "místico" é o fato dele ser uma faceta, uma parcela, de algo que é familiar, o Universo. A coisa, o Universo, é familiar, próxima, palpável, reconhecível, mas a Natureza do Universo, os aspectos intrínsecos e essenciais do Universo, não são por inteiro conhecidos. É à essa parcela da Natureza que é desconhecida que se refere o termo "místico".
Publicado por
Vinicius
A questão mecânica no hermetismo, uma investigação sobre o paradigma da relação corpo e incorpóreo nas relações fenomenológicas e magicistas.
Premissas e conceitos:
1- Chama-se
corpóreo é tudo aquilo que é engendrado¹.
1.1- Tudo que é engendrado é corruptível².
1.2- Todo corpo é móvel.
1.3- Um corpo não deve ser capaz de mover outro
corpo.
Explicação: O hermetismo,
trabalhado a partir do Corpus Hermeticum,
trabalhará com a dualidade corpo e espírito, tratando como corpo tudo àquilo
que é móvel e sujeito a mutação, e como espírito o contrário disto. Sendo o
corpo um móvel, não pode ele mover outros corpos, uma vez que, o móvel é àquilo
que é movido, sendo necessário então um outro objeto, o qual ele chamará de
incorpóreo ou espírito.
Premissas e conceitos:
2- Chama-se
incorpóreo tudo aquilo que é não-engendrado.
2.1- O
incorpóreo é incorruptível.
2.2- O
incorpóreo é imóvel e motor.
2.3- O incorpóreo
é responsável pelo movimento dos corpos.
Explicação: O incorpóreo é não criado, e desse modo,
não faz parte do mundo, não estando sujeito ao devir. Ele também não pode ser
movido, já que não exerce força motora sobre si mesmo e nada há maior que ele.
Desse modo, o incorpóreo é responsável por mover os corpos, tanto no movimento
mecânico, quanto no movimento potencial³.
Premissas e conceitos:
3-
O espaço é um incorpóreo.
3.1- Todos os corpos estão contidos no
espaço.
3.2- O espaço é o recipiente do corpo.
3.3- O espaço deve ser superior ao corpo,
para que lhe seja permitido o movimento.
Explicação: O espaço não é um corpo. Está é, talvez,
uma noção difícil de ser pensada. Tomemos como exemplo, um cômodo de uma casa,
nesse cômodo há uma cama, o cômodo é formado por paredes, porém não é o centro
da união de paredes que é o espaço, estando este cômodo, assim como toda a
casa, ou melhor, o mundo, contido num espaço, incorpóreo e ilimitado.
Premissas e conceitos:
4-
O espaço não possui limite.
4.1- O corpo possui forma e limite, todo corpo é limitado.
4.2-O incorpóreo não possui forma, sem forma não é possível lhe impor fronteiras.
4.1- O corpo possui forma e limite, todo corpo é limitado.
4.2-O incorpóreo não possui forma, sem forma não é possível lhe impor fronteiras.
4.3- Não há limites para o incorpóreo.
Explicação: Tal desenvolvimento não se encontra no
hermetismo de maneira clara, mas é amplamente desenvolvida por hermetistas do
período renascentista, tal como Giordano Bruno, em seu livro “Sobre o infinito, o universo e os mundos”.
Tal pensamento, que possui base na geometria, afirma que só é possível impor
limites espaciais ao corpo, sendo o incorpóreo, ilimitado, ou não passivo de
dimensão.
Premissas e conceitos:
5-
O mundo é um corpo.
5.1- O mundo é a totalidade dos corpos.
5.1- O mundo é a totalidade dos corpos.
5.2- O mundo, enquanto totalidade é um móvel
potencial.
Explicação: O mundo é um composto, um corpo, composto
por todos os corpos. Segundo o hermetismo esse mundo está “contido” no
intelecto divino, no incorpóreo, porém não é claro na obra, se ele possui
limites ou é infinito. Graças ao pensamento antigo, pensa-se o mundo no
hermetismo como limitado, como uma forma talvez de manter uma linearidade
histórica, outros autores porém, defenderão a noção hermética de mundo como
infinito. A grande questão nesse debate, é a afirmação de que o mundo está
contido no espaço incorpóreo. Se algo o contém, ele possui um limite, porém o
contra argumento a noção do limite do mundo no hermetismo, é a afirmação de que
o espaço ao qual ele se refere, não é enquanto lugar, mas enquanto pensamento
divino. Não entrarei nesse debate, apenas apresento as posições.
Citações:
“Todo móvel é movido não em qualquer
coisa que se move, mas em qualquer coisa em repouso: o motor também está em
repouso, pois não pode ser movido com aquilo que move”
(Hermes, p 20-6)
(Hermes, p 20-6)
“Todo
movimento então é feito numa imobilidade e por uma imobilidade. Assim então, o
movimento do mundo e de todo vivente material deve provir não de causas
exteriores ao corpo, mas interiores, operando de dentro para fora, quer seja
dos inteligíveis, quer seja a alma ou o sopro ou qualquer outro incorpóreo.
Pois um corpo não pode mover animado, de uma maneira geral, nenhuma espécie de corpo, mesmo se este corpo é inanimado.”
(Hermes, p 21-8)
“Pois é o que se encontra dentro do corpo que é o motor da coisa inanimada e não esse corpo mesmo, que move de uma só vez dois corpos, o corpo daquele que porta e o corpo daquele que é portado”
(Hermes, p 21-9)
Pois um corpo não pode mover animado, de uma maneira geral, nenhuma espécie de corpo, mesmo se este corpo é inanimado.”
(Hermes, p 21-8)
“Pois é o que se encontra dentro do corpo que é o motor da coisa inanimada e não esse corpo mesmo, que move de uma só vez dois corpos, o corpo daquele que porta e o corpo daquele que é portado”
(Hermes, p 21-9)
A concepção de Magia
A magia é tratada na história do ocultismo, de
dois modos, um modo a trata como uma disciplina investigativa ou uma ciência (Logos- λόγος)
,o outro modo a trata como uma arte, uma disciplina técnica, ritualística e
religiosa. A magia enquanto ciência,
mescla-se a filosofia antiga e a gnose e as religiões de mistérios, onde o mago
seria o sujeito que busca desvelar natureza, compreendendo seus aspectos não
perceptíveis aos sentidos, as chamadas virtudes ocultas, para fim de adquirir
conhecimento simplesmente, ou para, como comumente se aponta, produzir efeitos
sobre a Natureza. Por outro lado, a magia enquanto algo puramente artístico,
que o modelo mais comum na qual ela é tratada nos meios mais populares, tem
seus princípios em uma raiz totalmente religiosa. Não é possível demarcar
quando começa, uma das teses mais aceitas na atualidade, é que as bases da
magia ritual(artística) remonta ao período rupestre. Sejam quais forem as concepções de magia já
trabalhadas, na contemporaneidade, faz-se uma distinção clara entre esses dois
modelos, chamando a ideia científica de magia de Ocultismo, e a ideia artística
mantendo o nome magia.
Magia é uma
faculdade de
maravilhosa virtude, cheia
dos mais nobres mistérios,
contendo a mais profunda
contemplação das coisas
mais secretas junto à
natureza, ao poder, à
qualidade, à substância e às virtudes
delas, bem como o conhecimento de toda
a natureza, e ela nos instrui acerca
da
diferença e da concordância das coisas
entre si, produzindo assim
maravilhosos
efeitos, unindo as virtudes das coisas
pela da aplicação delas uma em relação
a
outra, unindo-as e tecendo-as bem
próximas por meio dos poderes e das
virtudes
dos corpos superiores.
(Agrippa, p 80)
(Agrippa, p 80)
Essa é a mais
perfeita e principal
ciência, a mais
sagrada e sublime espécie
de filosofia e,
por fim, a mais absoluta
perfeição de toda
a excelentíssima
Filosofia. Pois,
vendo que a filosofia
reguladora é
dividida em natural,
matemática e
teológica — a filosofia
natural, aliás,
ensina a natureza das
coisas que estão
no mundo, explorando e
investigando
suas causas,
efeitos, tempos,
lugares, maneiras,
eventos,
o todo e as partes,
(Agrippa, p 80)
“ A magia
era o exercício de propriedades psíquicas adquiridas nos diversos níveis de
iniciação. O desenvolvimento da vontade é o fim que todo homem deve ter em
mente, se deseja comandar as forças da natureza.” (Papus, p 104)
Os defensores da antiguidade rupestre da magia
parecem em diversos sentidos, defender uma dicotomia da prática mágica, em que
ela é colocada sob aspectos da linguagem e da fé. No exemplo dos homens das
cavernas, diz-se esses estudiosos, que as pinturas de caça feito com sangue de
animais nas paredes da caverna, não estavam ali, somente para narrar um
ocorrido, mas para manipular a natureza de modo, que a próxima caça ocorra tal
como documentado. Em termos de magia moderna, um primitivo sistema de signo era
criado, alimentado por meio de um rito, para exercer influência sobre os
fenômenos. Partindo do princípio que tal história seja verdadeira, ao
analisarmos o sistema mágico moderno, vemos que muito pouco mudou desde esse
primórdio.
O que muito comumente se observa, é uma tentativa de reciclar as noções de magia, fazer que idéias antigas ainda façam sentido na contemporaneidade.
Tendo observado que sistemas diferentes tratam por magia coisas diferentes, hora como um estudo intelectual, hora como uma prática de emoções e transcendência (ambos os conceitos bem misturados no hermetismo) , darei agora a significação que escolhi para tratar do tema nesse texto, e como analisar a prática mágica dentro da perspectiva mecânica do hermetismo.
Como foi analisado no corpus hermeticum, todo movimento, sem exceção, parte de um incorpóreo, um motor, uma ANIMA. Esse motor é causa eficiente, sendo responsável pela tanto mudança espacial dos objetos, quanto pela mudança formal. Em um exemplo claro, a ação desse incorpóreo sobre nós, fará com que nosso corpo se desenvolva e faça tudo aquilo que ele está apto a fazer. Porém, quando aplicamos o princípio de correspondência hermética para compreender o funcionamento da magia, vemos que não temos nenhuma dificuldade em pensar isso. Defino pois, por magia, o efeito de um incorpóreo sobre uma estrutura potencial. Pensemos isso mais claramente: “O efeito de um incorpóreo sobre uma estrutura potencial”.
Já vimos, que o incorpóreo a força que dá movimento aos corpos, falta-nos compreender, o que se quer dizer com “Estrutura potencial”. Chamo por estrutura todo composto de dois ou mais objetos, que se comunicam de modo a gerar uma cadeia de possibilidades. Porém tal estrutura, seria imóvel, caso não fosse tocada por um incorpóreo, de modo que, as possibilidades da interação entre os objetos simples, jamais viesse a se tornar presentes. Por exemplo, uma semente é um objeto composto de N objetos mais simples, de modo que, as interações desses objetos contidos na semente, conjuntamente a objetos externos, fazem com que essa semente venha a se tornar uma árvore, porém tais objetos contidos nessa semente não são suficientes, embora sejam necessários, é preciso ainda uma força que faça com que essa interação ocorra e se desdobrem numa cadeia de possibilidades. E por isso que essa estrutura é potencial, pela razão mesma de que ela se desdobra numa cadeia de possibilidades. De modo que, um magicista pode acelerar o crescimento de uma planta, ou retardar, mas não pode fazer que desta planta brote um elefante, pelo menos, não apenas utilizando água, luz e terra.
O magismo então, nada mais é que, a construção de estruturas potenciais e imposição da força motora sobre tais estruturas, de modo que, para seu funcionamento deve-se atentar tanto a cadeia de possibilidades, quanto a força empregada.
Ainda hoje, é comum observar entre os praticantes da arte, em uma total alienação, se valem de estruturas pré-estabelecidas, sendo que de modo algum, compreendem o modos operandi dessas técnicas. Paracelso, em seu livro A Chave da Alquimia4 , tece uma crítica aos pensadores de sua época, incluindo entre eles os místicos. Tal crítica, que vai desde a adjetivação de “copistas”, “aduladores” até a “adestradores de cães” se dá pelo fato de que, um fenômeno comum a época(Século XV e XVI), o trabalho alienado sobre os ramos do conhecimento, ou a mera repetição de doutrinas, já era observado e me atrevo a dizer, é perpetuado até os dias de hoje.
Talvez, um modo, de quebrar este ciclo coprofágico5 , se dê pelo estudo estrutural da magia e de outros interesses do ocultismo, para que possamos hoje, como os antigos, investigar a natureza e o homem, a partir deles mesmos, sem que precisemos mais, nos fixarmos a paradigmas e doutrinas.
O que muito comumente se observa, é uma tentativa de reciclar as noções de magia, fazer que idéias antigas ainda façam sentido na contemporaneidade.
Tendo observado que sistemas diferentes tratam por magia coisas diferentes, hora como um estudo intelectual, hora como uma prática de emoções e transcendência (ambos os conceitos bem misturados no hermetismo) , darei agora a significação que escolhi para tratar do tema nesse texto, e como analisar a prática mágica dentro da perspectiva mecânica do hermetismo.
Como foi analisado no corpus hermeticum, todo movimento, sem exceção, parte de um incorpóreo, um motor, uma ANIMA. Esse motor é causa eficiente, sendo responsável pela tanto mudança espacial dos objetos, quanto pela mudança formal. Em um exemplo claro, a ação desse incorpóreo sobre nós, fará com que nosso corpo se desenvolva e faça tudo aquilo que ele está apto a fazer. Porém, quando aplicamos o princípio de correspondência hermética para compreender o funcionamento da magia, vemos que não temos nenhuma dificuldade em pensar isso. Defino pois, por magia, o efeito de um incorpóreo sobre uma estrutura potencial. Pensemos isso mais claramente: “O efeito de um incorpóreo sobre uma estrutura potencial”.
Já vimos, que o incorpóreo a força que dá movimento aos corpos, falta-nos compreender, o que se quer dizer com “Estrutura potencial”. Chamo por estrutura todo composto de dois ou mais objetos, que se comunicam de modo a gerar uma cadeia de possibilidades. Porém tal estrutura, seria imóvel, caso não fosse tocada por um incorpóreo, de modo que, as possibilidades da interação entre os objetos simples, jamais viesse a se tornar presentes. Por exemplo, uma semente é um objeto composto de N objetos mais simples, de modo que, as interações desses objetos contidos na semente, conjuntamente a objetos externos, fazem com que essa semente venha a se tornar uma árvore, porém tais objetos contidos nessa semente não são suficientes, embora sejam necessários, é preciso ainda uma força que faça com que essa interação ocorra e se desdobrem numa cadeia de possibilidades. E por isso que essa estrutura é potencial, pela razão mesma de que ela se desdobra numa cadeia de possibilidades. De modo que, um magicista pode acelerar o crescimento de uma planta, ou retardar, mas não pode fazer que desta planta brote um elefante, pelo menos, não apenas utilizando água, luz e terra.
O magismo então, nada mais é que, a construção de estruturas potenciais e imposição da força motora sobre tais estruturas, de modo que, para seu funcionamento deve-se atentar tanto a cadeia de possibilidades, quanto a força empregada.
Ainda hoje, é comum observar entre os praticantes da arte, em uma total alienação, se valem de estruturas pré-estabelecidas, sendo que de modo algum, compreendem o modos operandi dessas técnicas. Paracelso, em seu livro A Chave da Alquimia4 , tece uma crítica aos pensadores de sua época, incluindo entre eles os místicos. Tal crítica, que vai desde a adjetivação de “copistas”, “aduladores” até a “adestradores de cães” se dá pelo fato de que, um fenômeno comum a época(Século XV e XVI), o trabalho alienado sobre os ramos do conhecimento, ou a mera repetição de doutrinas, já era observado e me atrevo a dizer, é perpetuado até os dias de hoje.
Talvez, um modo, de quebrar este ciclo coprofágico5 , se dê pelo estudo estrutural da magia e de outros interesses do ocultismo, para que possamos hoje, como os antigos, investigar a natureza e o homem, a partir deles mesmos, sem que precisemos mais, nos fixarmos a paradigmas e doutrinas.
“Praebere
Sitientibus”
Lord Vincus
2015
2015
Notas:
1- Engendrado: Que foi gerado, produzido, composto, feito.
2- Corruptível: Que é passivo de mudança, passivo de deixar de ser o que é, imperfeito.
3- Movimento mecânico e movimento potencial: O movimento mecânico é o movimento que se dá no espaço, como o deslocamento, por exemplo quando movemos um objeto do ponto A até o ponto B. O movimento potencial se dá no próprio objeto, quando ele deixa a forma A para tomar a Forma B, por exemplo, quando uma semente deixa sua ‘’forma semente’’ para tornar-se outra coisa.
4- Opera Omna, no original.
5- Termo retirado do texto “MÍSTICOS, FALÁCIAS, ILUSÕES E CICLOS COPROFÁGICOS” do autor Hugo Lemos. O texto pode ser encontrado no blog acasaocultismo.blosgpot ou no site ocultismo.org.
1- Engendrado: Que foi gerado, produzido, composto, feito.
2- Corruptível: Que é passivo de mudança, passivo de deixar de ser o que é, imperfeito.
3- Movimento mecânico e movimento potencial: O movimento mecânico é o movimento que se dá no espaço, como o deslocamento, por exemplo quando movemos um objeto do ponto A até o ponto B. O movimento potencial se dá no próprio objeto, quando ele deixa a forma A para tomar a Forma B, por exemplo, quando uma semente deixa sua ‘’forma semente’’ para tornar-se outra coisa.
4- Opera Omna, no original.
5- Termo retirado do texto “MÍSTICOS, FALÁCIAS, ILUSÕES E CICLOS COPROFÁGICOS” do autor Hugo Lemos. O texto pode ser encontrado no blog acasaocultismo.blosgpot ou no site ocultismo.org.
Bibliografia trabalhada:
Hermes Trimegisto. Corpus Hermeticum. Editora Hemus. 1978
Bruno, Giordano. Sobre o infinito, o universo e os mundos. Editora Nova Cultural.1988.
Três Iniciados. O Caibalion. Editora Pensamento. 1997.
Agrippa, Cornélio. Três Livros de Ciências Ocultas. Editora Madras.
Papus, Tratado de Ciências Ocultas. Editora Três. 1973.
Paracelso. A Chave da Alquimia. Editora Três. 1973.
Lemus, Hugo.Místicos, falácias, ilusões e ciclos coprofágicos.Sociedade Filosófica Estrela Rubra.2014.
Hermes Trimegisto. Corpus Hermeticum. Editora Hemus. 1978
Bruno, Giordano. Sobre o infinito, o universo e os mundos. Editora Nova Cultural.1988.
Três Iniciados. O Caibalion. Editora Pensamento. 1997.
Agrippa, Cornélio. Três Livros de Ciências Ocultas. Editora Madras.
Papus, Tratado de Ciências Ocultas. Editora Três. 1973.
Paracelso. A Chave da Alquimia. Editora Três. 1973.
Lemus, Hugo.Místicos, falácias, ilusões e ciclos coprofágicos.Sociedade Filosófica Estrela Rubra.2014.
Publicado por
Vinicius
“A
ciência é um empreendimento essencialmente anárquico:
o
anarquismo teorético é mais humanitário e mais suscetível de
estimular
o progresso do que suas alternativas representadas por
ordem
e lei.’’ P.K. Feyerabend
Paul Feyerabend, em sua introdução do livro
“Contra o Método”, deixa claro aquilo que ele deseja defender na obra. Seu
trabalho aqui será tratar que o conhecimento, seja ele de qual ordem for, não
deve ser dito por uma única tradição ou único método. Sua defesa se dá, em
grande parte, por duas razões; A primeira é pelo fato do mundo ser demasiado
desconhecido, de modo que, o risco de um sistema epistemológico único não ser
capaz de apreender tudo, é muito alto. O bom cientista, segundo o autor, seria
aquele que é capaz de dominar qualquer metodologia, transgredir uma metodologia
vigente e passar de um sistema para outro sempre que o usual não for capaz de
abarcar um determinado imprevisto. O segundo motivo se dá por uma razão
‘humanista’, razão que é contrária a anulação do elemento humano, que segundo
as escolas, corrompe o pensamento científico, de modo que a ciência para o
autor não deve ser apenas uma instituição fria, mas uma instituição que ajude a
desenvolver pessoas e desperte o interesse pelos segredos da natureza. A defesa
humanista de Feyerabend se dá nessa introdução, pelo fato de que, a ciência não
se dá simplesmente a descrição fria dos fenômenos, mas por interpretações, erros e problemas criados
por observações e interpretações conflitantes.
A necessidade de um
método é defendida por alguns autores, pelo fato de delimitar a área de atuação
e simplificar o pensamento. Desse modo, o conteúdo científico é mais facilmente
reproduzível e apegado a uma única linha de raciocínio, de modo que, cientistas
diferentes possam comunicar-se numa mesma linguagem. Além disso, o método visa
impedir a contaminação da ciência por pensamentos religiosos ou metafísicos,
que poderia relativizar a tradição científica. A grande questão, trazida aqui
pelo autor é “Apesar desse modelo funcionar, ele realmente deve ser posto acima
de outros gêneros de conhecimento e modos de conhecer? Deve-se ignorar todo
saber que não fora demonstrado por um método científico vigente?” A resposta do
autor, a esta questão é; Não. As
razões disso, já foram expostas no primeiro parágrafo.
“A tentativa de fazer crescer a liberdade,
de atingir vida completa e gratificadora e a tentativa
correspondente
de descobrir os segredos da natureza e do homem
implicam,
portanto, rejeição de todos os padrões universais e de
todas as
tradições rígidas.”
(p 22)
(p 22)
O anarquismo
científico Feyerabend, entretanto, não exclui a rigidez do método científico,
ele o abarca, assim como abarca todo e qualquer método capaz de produzir
conhecimento sobre a natureza.
No meio ocultista,
existe dentre os mais estudiosos, os debates acerca do método adequado ao
ocultismo. Nesse debate segue-se duas correntes, uma moderna e outra mais tradicional.
Os tradicionalistas costumam defender que o ocultismo e o magismo devem seguir
determinada tradição metodológica, sendo todo resto “pop Magic” ou mera indução mental, tal crítica, parte do
princípio de que há uma ordem(kosmos)
por eles conhecida por meio dos registros de sua tradição. Os modernos, que se
aproximam daquilo que Feyerabend chama de “Anarquismo”, não rejeitam os meios
tradicionais, mas não prendem-se a eles, defendendo que há N maneiras possíveis
tanto para a prática investigativa, como magicista.
Este texto é meramente um comentário à introdução da obra “Contra o Método” de Paul Feyerabend. E
em breve, se assim meus leitores desejarem, pretendo comentar os capítulos da
obra, sempre trazendo a discussão pro nosso meio. Pois engana-se quem pensa,
que a evolução do pensamento ocultista tenha se dado de forma independente do
resto dos movimentos culturais do homem.
“Praebere Sitientibus”
Lord Vincus
2014
Lord Vincus
2014
Publicado por
Vinicius
Embora seu tratamento no meio ocultista(escrito) seja em maior parte contemporâneo e ainda muito especulativo, o sexo deve ser tema de máxima relevância para o estudante. Tal afirmação é feita não por um caráter ético ou espiritualista, bem longe disso, mas pelo caráter próprio do ocultismo e das noções de conhecimento sobre si mesmo.
Graças ao pensamento asceta, o sexo tornou-se algo impróprio ao pensamento humano, segundo Foucault tal ideal tornou-se mais forte graças aos movimentos científicos/psicologistas do século XVIII sob a influência do movimento industrial, diz o citado filósofo que com a revolução industrial o mundo europeu adotou um pensamento totalmente voltado à lógica de produção, e por culpa disso, o sexo tornou-se um meio de produção como qualquer outro, cuja única finalidade era a procriação, tal ideal foi criado dentre vários motivos, para incentivar a geração de trabalhadores fabris e fortalecer o comando dos burgueses sobre a classe operária unindo o dogma religioso com o cientificismo da época. Graças a esse fato histórico, formas sexuais não conceptivas foram tomadas não só como aberrações morais, mas também atentados contra a saúde do Estado. Jovens eram proibidos de se masturbarem, pois tal prática segundo o meio científico poderia causa tanto impotência na vida adulta, como a loucura. Para impedir a masturbação de homens e mulheres incentivou-se o casamento nas idades logo após o movimento de maturação dos corpos. Não só a masturbação tornou-se proibida, mas o sexo oral e anal, pelos mesmos motivos, gasto de sêmen e deficiência psicológica(Veja que esses influenciam também o movimento espiritualista asceta dos modernos). Começa então verdadeiramente a luta contra o sexo com prostitutas e contra o sexo não conceptivo(contra grupos homossexuais principalmente), tal luta que é moderna e não medieval como muitos acreditam.
Graças ao pensamento asceta, o sexo tornou-se algo impróprio ao pensamento humano, segundo Foucault tal ideal tornou-se mais forte graças aos movimentos científicos/psicologistas do século XVIII sob a influência do movimento industrial, diz o citado filósofo que com a revolução industrial o mundo europeu adotou um pensamento totalmente voltado à lógica de produção, e por culpa disso, o sexo tornou-se um meio de produção como qualquer outro, cuja única finalidade era a procriação, tal ideal foi criado dentre vários motivos, para incentivar a geração de trabalhadores fabris e fortalecer o comando dos burgueses sobre a classe operária unindo o dogma religioso com o cientificismo da época. Graças a esse fato histórico, formas sexuais não conceptivas foram tomadas não só como aberrações morais, mas também atentados contra a saúde do Estado. Jovens eram proibidos de se masturbarem, pois tal prática segundo o meio científico poderia causa tanto impotência na vida adulta, como a loucura. Para impedir a masturbação de homens e mulheres incentivou-se o casamento nas idades logo após o movimento de maturação dos corpos. Não só a masturbação tornou-se proibida, mas o sexo oral e anal, pelos mesmos motivos, gasto de sêmen e deficiência psicológica(Veja que esses influenciam também o movimento espiritualista asceta dos modernos). Começa então verdadeiramente a luta contra o sexo com prostitutas e contra o sexo não conceptivo(contra grupos homossexuais principalmente), tal luta que é moderna e não medieval como muitos acreditam.
Embora a ciência atualmente tenha voltado atrás com essas questões(por razões também políticas) esse modo de ver o mundo influencia enormemente nossos espíritos, apenas com os movimentos contra o cristianismo e por conseguinte contra a cultura, dos séculos XIX e XX com pensadores como Aleister Crowley, Nietzsche e Anton Lavey que os jovens passam a buscar uma maior liberdade corporal e espiritual. Embora a influencia desses e de outros autores na libertação da prática/pensamento sexual seja louvável, nossa sociedade(Brasil) ainda se prende aos dogmas sociais, não importando se o grupo é cristão, ateu ou pagão, a liberdade sexual ainda é rara.
Segundo Foucault o sexo foi tema importante para as escolas de mistérios do oriente e do ocidente, e objeto necessário da iniciação da juventude no conhecimento sobre a natureza. Segundo o autor, o sexo deve ser ensinado ao jovem de duas formas com nomes distintos, esses são a "Scientia Sexualis" e a "Ars Erótica", a primeira é a educação através da palavra dita ou escrita, no caso, se dá por meio do discurso cientifico e filosófico e a segunda é a parte inominável do conhecimento sexual e só pode ser compreendido pela prática.
Na Scientia Sexualis, gênero de conhecimento desenvolvido principalmente pelo cristianismo e a escolástica, há uma necessidade de falar sobre o sexo, dizer sua função, suas necessidades etc. Tal modo não só é/era insuficiente para tratar o tema, como foi usado como modo da Igreja/Nobreza compreender e discutir tais temas tidos como vulgares(dos pobres) e animalesco sem comprometerem a própria honra. A Scientia Sexualis é provavelmente a causadora dos maiores equívocos sobre o sexo, que lançou ao inferno os assexuados, homossexuais e libertinos.
Na Ars Erótica o conhecimento se dá por meio da prática do sexo, questões como "O que é o sexo", "O que é necessário para o sexo" e coisas do gênero não são importantes, porém não se deve tomar como a prática sexual livre de conhecimento, mas repleta dele. Conta Foucault que os mestres educavam seus alunos de forma direta ou indireta, os jovens(geralmente homens) eram levados a compreender como se dava o prazer em seu próprio corpo, quanto ele durava utilizando diferentes modos, como intensifica-lo, como livra-lo da dor e assim por diante. O aprendiz era levado a compreender seu próprio corpo, e mais do que isso, a supera-lo! A cada prática, o mestre instruía seu aprendiz a como intensificar o prazer, como intensificar o tempo, como escolher boas mulheres para o coito, enfim o ensinava verdadeiramente sobre o sexo.
O sexo para o ocultista passa de ferramenta de conhecimento de si mesmo, para ferramenta de auto controle em diversos níveis, pois aí é exigido não só o controle do corpo, mas da mente. O prazer perde toda a qualidade moral e passa a ser um fato e uma competência.
O aprendizado do sexo, não se limita ao uso prático e teórico dentro do próprio sexo, mas se estende ao espírito por dar ao estudante melhor controle emocional e da Vontade, se estende ao social por dar ao estudante maior liberdade de expressar-se e de pensar e principalmente se estende ao corpo, que se torna menos submisso.
O sexo para o ocultista passa de ferramenta de conhecimento de si mesmo, para ferramenta de auto controle em diversos níveis, pois aí é exigido não só o controle do corpo, mas da mente. O prazer perde toda a qualidade moral e passa a ser um fato e uma competência.
O aprendizado do sexo, não se limita ao uso prático e teórico dentro do próprio sexo, mas se estende ao espírito por dar ao estudante melhor controle emocional e da Vontade, se estende ao social por dar ao estudante maior liberdade de expressar-se e de pensar e principalmente se estende ao corpo, que se torna menos submisso.
Não penso em outro estudo sobre o sexo no ocultismo que não exija a prática do controle emocional, corporal e intelectual. O uso do sexo para ativar esse sigilo ou para qualquer fim do gênero se torna estapafúrdio para aqueles que aprendem de fato sobre o tema, que aprendem a conhecer e não a reproduzir somente.
Tais afirmações se tornam claras, quando conhecemos o ocultismo e sua história, seu mapa conceitual, quando vemos além do absurdo de ver o ocultista como aquele que estuda o sobrenatural e reproduz técnicas ou devaneios do tipo, mas quando vemos o ocultista como aquele que em sua sede pela verdade(βιος θεωρπτικός), retira o véu que cobre conhecimento, como desvelador e não como aquele que vela(põe o véu). Sendo então o ocultista um des-cobridor, um homem de Aletheia, ele deve ser aquele que em qualquer tema, seja sobre o Sexo ou sobre o Homem, não se prende ao que foi dito, mas experimenta sem prender-se a experimentação buscando desvelar e conhecer o que ali se oculta, e sendo ele um magicista, deve ser também capaz não só de mostrar o que aprendeu, mas de elevar e superar-se em suas práticas e conhecimentos.
"Praebere Sitientibus"
Lord Vincus
Lord Vincus
2014
Publicado por
Vinicius
Os moderadores do grupo Ocultismo convidam nossos leitores a estudarem a obra "Contra o Método" de Paul Feyerabend dentro de uma perspectiva que dialogue com o Ocultismo. A proposta é lermos juntos, pelo menos um capítulo por semana, e a cada semana publicarmos um resumo comentado do capítulo lido. Desse modo, nossos leitores podem, se desejarem, enviar seus comentários sobre a obra abordando a perspectiva do método no ocultismo, e se tais comentários forem julgados úteis por mim, poderão ser publicados aqui no Blog. Além disso, discussões sobre a leitura serão possíveis no grupo acima mencionado.
Publicado por
Vinicius
Todo símbolo é, sem muito medo de equivocar-me, uma roupagem pela qual uma ou mais ideias ou objetos se expressam. Essas ideias cuja a fonte pode possuir ou não uma forma específica serão por mim chamadas de espírito. O espírito é então aquilo que é imanifesto em si mesmo, porém é manifesto quando apropria-se de um agente plástico. Um exemplo claro está sendo dado continuamente ao meu leitor por meio dessas palavras que utilizo para me expressar, essas palavras que não são a coisa mesma evocam as coisas para as quais servem de vestimenta.
Quando falo de 'Justiça', por exemplo, devo atentar que aquilo que chamamos por esse nome não possui forma e não pode de modo algum ser comunicado, a menos que, este espírito seja revestido de um ou mais corpos para que seu sentido possa ser conhecido. O espírito da justiça é comunicado por meio de sua roupagem coma a grafia ou som de seu nome, desse modo, sempre que ouvirmos a palavra ou tomarmos alguma de suas manifestações visuais acabaremos por evocar total ou parcialmente os espíritos que nesses símbolos estão ocultos.
Para um espíritos ser devidamente evocado, Tê-lo selado em uma ou mais símbolos não é suficiente, é necessário que ele esteja devidamente inserido em um sistema de símbolos concatenados, com efeito, se tomarmos por exemplo a palavra 'cadeira' sem tê-la inserido em uma rede de símbolos ela não terá nenhum significado, se por outro lado esta mesma palavra estiver dentro de um sistema ela passa a informar alguma coisa, afinal só posso evocar um espírito se já tiver dominado os espíritos que a ele são submissos, igualmente, só posso evocar e fazer uso do espírito da cadeira quando possuir o controle dos espíritos mais simples que a ela seguem, tal como o espírito de encosto, base e acento.
Ainda nesse sentido, se eu quiser evocar o espírito do Sol quando seu objeto não estiver pairando sobre o firmamento, devo antes evocas os espíritos que lhe são subordinados, tal como os espíritos da luz e do calor ou de qualquer coisa sob o domínio do Sol ou que lhe dê significado. Desse modo quando percebemos que todos os espíritos se concatenam, percebemos que quanto maior o número de espíritos que dominamos, maior será a facilidade de dominar espíritos mais complexos, o que se deduz que o ocultista deve conhecer os espíritos mais simples para assim poder alcançar seus respectivos governantes e sobre eles exercer domínio, esse é um dos pilares do conhecimento, com efeito basta dominar o exercito para subjugar o comandante.
Desse modo no que diz respeito aos espíritos que ainda não conseguimos dominar, basta que encontremos seus respectivos servos e tenhamos posse de seus selos para então através deles tomarmos o seu governante, vale ressaltar que muitos espíritos possuem mais de um senhor, e muitos senhores são servos de espíritos muito maiores. Como exemplo de um espírito com mais de um senhor temos o espírito da quentura, que serve ao Sol, ao fogo ou ao abraço. Como exemplo de espírito que é servo e senhor temos o Sol que além de dominar os espíritos por mim enunciados, ele é dominado por espíritos maiores como por exemplo o espírito de Estrela. Todos que ignoram essa regra de nossa linguagem nunca foram capazes de dominar grandes espíritos.
Para aqueles que conseguiram a proeza de não compreender o que agora expus, é suficiente meditar sobre a sexta regra de Descartes.
Para um espíritos ser devidamente evocado, Tê-lo selado em uma ou mais símbolos não é suficiente, é necessário que ele esteja devidamente inserido em um sistema de símbolos concatenados, com efeito, se tomarmos por exemplo a palavra 'cadeira' sem tê-la inserido em uma rede de símbolos ela não terá nenhum significado, se por outro lado esta mesma palavra estiver dentro de um sistema ela passa a informar alguma coisa, afinal só posso evocar um espírito se já tiver dominado os espíritos que a ele são submissos, igualmente, só posso evocar e fazer uso do espírito da cadeira quando possuir o controle dos espíritos mais simples que a ela seguem, tal como o espírito de encosto, base e acento.
Ainda nesse sentido, se eu quiser evocar o espírito do Sol quando seu objeto não estiver pairando sobre o firmamento, devo antes evocas os espíritos que lhe são subordinados, tal como os espíritos da luz e do calor ou de qualquer coisa sob o domínio do Sol ou que lhe dê significado. Desse modo quando percebemos que todos os espíritos se concatenam, percebemos que quanto maior o número de espíritos que dominamos, maior será a facilidade de dominar espíritos mais complexos, o que se deduz que o ocultista deve conhecer os espíritos mais simples para assim poder alcançar seus respectivos governantes e sobre eles exercer domínio, esse é um dos pilares do conhecimento, com efeito basta dominar o exercito para subjugar o comandante.
Desse modo no que diz respeito aos espíritos que ainda não conseguimos dominar, basta que encontremos seus respectivos servos e tenhamos posse de seus selos para então através deles tomarmos o seu governante, vale ressaltar que muitos espíritos possuem mais de um senhor, e muitos senhores são servos de espíritos muito maiores. Como exemplo de um espírito com mais de um senhor temos o espírito da quentura, que serve ao Sol, ao fogo ou ao abraço. Como exemplo de espírito que é servo e senhor temos o Sol que além de dominar os espíritos por mim enunciados, ele é dominado por espíritos maiores como por exemplo o espírito de Estrela. Todos que ignoram essa regra de nossa linguagem nunca foram capazes de dominar grandes espíritos.
Para aqueles que conseguiram a proeza de não compreender o que agora expus, é suficiente meditar sobre a sexta regra de Descartes.
[trecho removido por não acrescentar ao tema, apenas uma reflexão do método exposto como modelo para alcançar um espírito último e universal]
Apesar de tudo o que foi dito, há questões que devemos atentar, uma é que um mesmo espírito pode usar inúmeras imagens para se manifestar, por exemplo o espírito da Justiça que pode se mostrar por meio da palavra escrita, falada, por ideogramas como é o caso da balança ou até mesmo sob a casca de uma deusa ou estátua, embora todas essas roupagens sejam diferentes, são passíveis de serem tomadas por um mesmo espírito. A segunda questão é que uma mesma roupagem pode ser dividida por inúmeros espíritos, como é um caso de um mesmo símbolo tem diferentes significados, como é o caso por exemplo da cruz que pode ser habitada pelo espírito de Cristo, com os quatro elementos da física antiga, com o simples cruzar de retas dos geômetras e até mesmo com o espírito da tortura talvez tenha atormentado homens de um passado distante. Dito isso concluo que um mesmo espírito não usa apenas uma mesma vestimenta e a mesma vestimenta não é usada por apenas um espírito. Sendo assim o ocultista hábil não julgará o espírito pela sua roupa, ele mostrará-se clarividente e verá através das aparências, isso se torna fácil empregando os saberes aqui expostos, pois esses espíritos costumam andar acompanhados de seus servos e é através deles que iremos identifica-los, é como dirá os populares "me diga com quem andas e te direi quem és".
Compreendendo isso caro leitor, rogo-lhe pelo bom senso para que não copie as ações daqueles que falam mais do que sabem, como em sua maioria fazem os que se ocupam do comércio e da glória vã, pois devemos saber que o ocultista difere do copista, desse modo quando um estranho vier lhe oferecer um símbolo e lhe pedir para que seu espírito seja desvelado, cuide para não precipitar-se, com efeito uma mesma casca nem sempre terá um mesmo espírito. Desse modo, quando um Ankh for apresentado não se apresse em apontar um determinado espírito como seu hospedeiro, primeiro questione onde tal símbolo se inseri[...], se o interlocutor não for capaz de lhe informar isso e lhe passar somente o símbolo solitário deve-se então dizer-lhe a verdade, ou seja, que o símbolo é uma casca oca(um não-símbolo), ou então instrua-o para que possa por conta própria encontrar o espírito que ali repousa, com efeito, embora o símbolo seja o mesmo, o espírito em seu interior não será idêntico quando for observado dentro da mitologia egípcia e de uma linha new-age. Cabe então o ocultista investigar o inaparente(espírito) e torna-lo aparente, aqueles que se ocupam somente da vestimenta sem ocupar-se devidamente do espírito não são ocultistas.
Devemos falar ainda de espíritos irmãos que podem vestir-se dos mesmos símbolos, partilharem entre si inúmeros servidores e terem ainda o mesmo nome(que é também um símbolo), não atoa que temos vários espíritos diferentes sendo tomados pelos desatentos como iguais. Podemos citar por exemplo os espíritos que atendem pelo nome de justiça, com efeito não há um único espírito para a justiça que seja universalmente usual, há inúmeras noções da mesma, partilhando os mesmos servidores, mas diferenciando-se na medida que os servidores divergem.
[...]
Compreendendo isso caro leitor, rogo-lhe pelo bom senso para que não copie as ações daqueles que falam mais do que sabem, como em sua maioria fazem os que se ocupam do comércio e da glória vã, pois devemos saber que o ocultista difere do copista, desse modo quando um estranho vier lhe oferecer um símbolo e lhe pedir para que seu espírito seja desvelado, cuide para não precipitar-se, com efeito uma mesma casca nem sempre terá um mesmo espírito. Desse modo, quando um Ankh for apresentado não se apresse em apontar um determinado espírito como seu hospedeiro, primeiro questione onde tal símbolo se inseri[...], se o interlocutor não for capaz de lhe informar isso e lhe passar somente o símbolo solitário deve-se então dizer-lhe a verdade, ou seja, que o símbolo é uma casca oca(um não-símbolo), ou então instrua-o para que possa por conta própria encontrar o espírito que ali repousa, com efeito, embora o símbolo seja o mesmo, o espírito em seu interior não será idêntico quando for observado dentro da mitologia egípcia e de uma linha new-age. Cabe então o ocultista investigar o inaparente(espírito) e torna-lo aparente, aqueles que se ocupam somente da vestimenta sem ocupar-se devidamente do espírito não são ocultistas.
Devemos falar ainda de espíritos irmãos que podem vestir-se dos mesmos símbolos, partilharem entre si inúmeros servidores e terem ainda o mesmo nome(que é também um símbolo), não atoa que temos vários espíritos diferentes sendo tomados pelos desatentos como iguais. Podemos citar por exemplo os espíritos que atendem pelo nome de justiça, com efeito não há um único espírito para a justiça que seja universalmente usual, há inúmeras noções da mesma, partilhando os mesmos servidores, mas diferenciando-se na medida que os servidores divergem.
[...]
Publicado por
Hugo Lemos
"Ordália" é um termo interessante usado por muitos para descrever, geralmente, as "dificuldades que um indivíduo começa a sofrer quando começa a andar em direção ao seu aprimoramento". É uma ideia interessante, embora possua uma carga de moral espiritualista, mas afirmo que ela é, em grande parte, válida. O conceito de "ordálias", no entanto, ainda carrega uma implicação consideravelmente "mistificada" e, por tanto, pretendo traze-la para um viés de compreensão mais claro, tal como fiz com a ideia de "kharma"[1].
"Ordália" se refere, dentro de uma perspectiva histórica, à um tipo de julgamento realizado, inicialmente, pela Igreja onde o indivíduo passa por uma provação de algum tipo para provar a sua resolução (a sua vontade). Dentro da ritualística de sistemas diversos temos exemplos do que podemos chamar de Ordálias formais (voto de silêncio, voto de pobreza, voto de castidade, etc.) mas vejo, no contexto atual, a ideia de Ordálias como sendo provações experienciadas pelo indivíduo por razões diversas, não tendo sido previamente estabelecidas (não sendo assim algo "formal") e sim como algo ocasionado por motivos outros. Acho fascinante essa noção, embora não atribua à ela nenhuma espécie de valor "místico" ou "mágico" ou qualquer sentido de "vontade superior" ou "respaldo kharmico do desenvolvimento da sua alma" (em verdade não sou adepto de nenhuma das ideias expostas nesta frase, kharma e "desenvolvimento da alma"). Por conta da natureza relacionada à um suposto respaldo à certas ações chamarei esse tipo de Ordália de Ordália Causal (referente à causa e efeito).
Para trazer a ideia de Ordália Causal para uma ótica mais clara precisaremos entender um pouco não só de processos sociais e humanos como também um pouco de física. Já que o nome dado é Ordália Causal precisaremos falar então, mesmo que brevemente, de Sir Isaac Newton, famoso cientista, físico e, também, Ocultista[2], e de suas famosas 3 Leis[3].
Começarei tratando dos elementos que compõem o quadro onde as Ordálias são percebidas, quando os elementos começarem a se dispor será possível entender como cada fração compõe o todo em sua forma e função. O primeiro elemento que precisamos entender é a Primeira Lei de Newton - o Princípio da Inércia. O princípio da inércia afirma que se a força resultante sobre um objeto é nula ele terá movimento (velocidade e direção) constantes. Ou seja, um objeto parado persistirá parado até que uma força aja sobre o mesmo e um objeto em movimento só mudará seu movimento se uma força agir sobre o mesmo alterando-a. Essa noção é importante, lembrem-se disso.
A Segunda Lei de Newton lida com dinâmica e vetores e diz que uma força aplicada sobre determinado sistema mecânico obtém um resultado (movimento) relacionado com a força e a direção da força que foi aplicada. A Terceira Lei de Newton é a clássica lei de ação e reação que afirma que toda ação sobre um corpo ocasiona uma reação de igual força e direção mas com o sentido contrário. Isso foi adotado de forma romantizada por muitas correntes místicas e espiritualistas como uma "comprovação mundana das leis kharmicas do universo" ou algo do gênero, e embora eu deva admitir que, de fato, também não irei me servir dessa noção dentro do seu âmago naturalmente físico também me afasto de romantizar sobre esta fascinante noção.
Agora trago à mesa também noções de sociedade e mundo. A ideia da manutenção do poder como sendo um fim almejado pelo estado para garantir a sua sobrevivência é algo que não é nem um pouco novo. A implicação disso é que o estado pode fazer o que for mas a predominância do status quo, da existência do estado e das coisas em um patamar neutro e agradável para a propagação do próprio estado, é uma condição desejável. O mesmo processo é visto em um corpo, que busca manter-se saudável para sua própria propagação. Não fosse assim o estado e o corpo se implodiriam na primeira oportunidade e isso, de fato, não ocorre. A manutenção do status quo, portanto, é fundamentalmente necessário para a existência e propagação dessas coisas.
Assim sendo consideremos consideremos a sociedade (o mundo) como um corpo em movimento constante, inercial. Esse movimento constante, assim como seu sentido, são àquilo que é previsto como sendo "normal" (status quo). Quando um indivíduo se torna capaz de realizar uma ação no mundo que é capaz de alterar a direção deste corpo, da sociedade (do mundo), este corpo tende à reagir para manter-se em sua posição constante e estável. Na sociedade e no mundo há um processo de busca pela estabilidade harmônica entre as partes, esse processo é visto na natureza selvagem com maior facilidade (mesmo considerando o processo de extinção de espécies e etc). Quando o sistema vigente é "desafiado" (tem seu paradigma alterado) ele tende à reagir em busca de retornar à seu estado de equilíbrio harmônico prévio ou adequar-se à nova realidade, equilibrando-se. Esse processo de retomada da estabilidade é, em diversos aspectos, similar à ação de um elástico, que tenta retornar ao seu estado, sua forma, de estabilidade prévia. Não sendo capaz ele se adaptará a nova condição (moldando-se, ficando mais folgado, ou mesmo rompendo-se, embora o rompimento, a quebra, não seja desejada pelo sistema).
Tendo então que a Ordália se dá através do processo de "desafio" ao paradigma vigente temos que entender agora a relação de causalidade que, justamente, entra na ideia de Ordália Causal. Ora, sendo que é necessário um corpo (um indivíduo) atuar sobre outro corpo (sociedade, mundo, etc.) de forma a alterar sua direção e este, o sistema alterado, buscará retornar a sua posição prévia de estabilidade (o movimento previsto pela trajetória inercial, estável, prévia, prevista pelo que é normal, pelo status quo) atuando (reagindo) sobre o corpo que iniciou a cadeia de alteração do paradigma do sistema. Vemos, então, como a Lei da Ação e Reação exposta por Newton se encaixa aqui. Podemos exemplificar isso com diversos casos:
Um rapaz não costumava se exercitar e ao começar ele passa por dores musculares que são típicas e esperadas. Isso pode ser uma "Ordália". A dor muscular serve como uma força de resistência à alteração do paradigma anterior (onde o rapaz não se exercitava) de forma que se esta, a "Ordália", não for suportada (superada) o sistema logo regressará ao seu estado prévio de estabilidade, onde o rapaz não se exercitava, e se for superada o paradigma do sistema se moldará e haverá um novo sistema estável (onde o rapaz se exercita). Mas agora, então, além das dores musculares o rapaz se depara com mais um problema: seus amigos estão lhe chamando para sair. Ora, ele quer ir se exercitar mas ele também se vê desejoso de sair com seus amigos. Já que antes de ter a rotina de exercícios o rapaz tinha mais tempo, seus amigos o chamavam para sair com maior frequência, agora que parte de seu tempo, que antes era disponível, foi alocado à prática de exercícios há um choque por conta da alteração do paradigma. Os seus amigos, que aqui representam o sistema velho, persistem na busca pelo velho sistema estável, onde eles saiam com frequência e não havia esse tempo alocado à exercícios.
Esse tipo de Ordália Causal é a que é mais facilmente percebida e menos compreendida. Normalmente tendem à "mistifica"-la desnecessariamente. Se pequenos atrasos ocorressem no seu dia-a-dia e você não tivesse compromisso ou obrigação alguma isso não seria percebido como um problema. No entanto quando estas ocorrem em um dia, ou período, atribulado de afazeres mais sérios e comprometidos, ou que exigem maior esforço do indivíduo (normalmente mudanças de paradigma, comportamento e etc exigem mais esforço), estas são logo entendidas como sendo fruto de algo "místico", o que não é feliz. Se engarrafamentos acontecem de forma esporádica em determinada via em certos horários não vejo como ser possível, ou compreensível, atribuir à "forças místicas" a responsabilidade disso ocorrer justamente NAQUELE dia. Mas, ainda assim, consigo compreender a validade do conceito, embora recuse sua mistificação exacerbada.
Que fique claro que minha pretensão aqui não é a de impor nada, em absoluto, aqui, mas sim trazer uma reflexão e investigação que nos dê uma nova perspectiva acerca do assunto tratado. No mais, acredito que fui feliz em expor um contraponto ao entendimento do que seriam "Ordálias".
[1] - LEMOS, Hugo, Meditações I - Moral e Consequências
[2] - Como referência inicial para direcionar-lhe à um aprofundamento sobre o tema citarei a página sobre os estudos "ocultos" de Isaac Newton na Wikipédia (em inglês).
[3] - Artigo da Wikipédia sobre as Leis de Newton para fins práticos de acompanhamento.
Publicado por
Hugo Lemos
Adianto-me à pedir perdão àqueles que porventura se sintam ofendidos com as afirmações, e o teor das mesmas, aqui expressas. Acredito, no entanto, que o sentido e a forma adotada para expressa-lo são adequados e que embora seja lastimável a ofensa às sensibilidades alheias, esta se faz necessária.
Em um texto recente elaborei sobre àquilo que chamam de "Místico"[1]. O labor derivado disso se chamaria, então, misticismo. Irei, então, elaborar sobre o que são, então, o Misticismo promovido pelos Misticos e certos problemas relacionados à isso.
Tal como exposto, o "místico" é o mistério relacionado à parte ainda desconhecida da Natureza de certo algo que é, para nós, familiar[2] (estou falando aqui do Universo). Os místicos, que "fazem" misticismo (o labor sobre o místico), se ocupam tão somente do "místico". Ao contrário dos Ocultistas, que tem a pretensão de estudar e, portanto, desvelar o oculto, os místicos tem como pretensão tão somente o ENVOLVIMENTO (como em "envolver-se", "cercar-se") com àquilo que é desconhecido, aquilo que é escondido, àquilo que é "místico".
Em uma analogia posso dizer que o Ocultista é como o explorador que traz uma tocha para dentro da caverna do desconhecido, ilumina o caminho por onde passa (desvela o que jaz místico, que ainda é mistério, que é desconhecido e oculto) e traça um mapa do caminho que cruzou (produz conhecimento), o místico se satisfaz (como um puro espiritualista) em simplesmente estar na caverna em meio à escuridão e andar nela sem se preocupar em levar uma tocha ou lanterna(já que satisfaz a busca do seu Espírito por felicidade). Ele mergulha em um mar de desconhecido com a pretensão de simplesmente se afogar.
A razão disso é simples: o labor do Místico envolve, justamente, o místico, o mistério, o desconhecido. Se ele desvelar isso ele não tem mais razão de ser. Ou seja, se o desvelamento do que é místico fosse o fim do Misticismo (o labor sobre o místico) ele seria auto-destrutivo. Se assim fosse então teríamos que a missão deles é deixar de existir, um propósito suicida, basicamente. O Misticismo, então, se ocupa com o que, exatamente? Ora, são espiritualistas que não tem a pretensão de conhecer, verdadeiramente, o objeto de seu ofício, tampouco de produzir conhecimento. Com essas considerações posso dizer que eles são, de fato, Crentes. O seu fim é aquele do Espiritualismo, a obtenção da felicidade, e para tal eles se familiarizam (isso não significa que eles compreendem, conhecem ou entendam) com seus diversos sistemas de crenças místicas. Crenças Místicas são crenças sobre o desconhecido e Místicos, necessariamente, tendem a "mistificar", ou seja, tornar "desconhecido" e misterioso, ao invés de tornar claro e evidente o objeto tratado. A formação de uma cadeia, ou teia, de crenças de forma à estabelecer uma "estrutura" ou "corpo" coeso se denomina "sistema". Neste caso temos um Sistema de Crenças.
Conhecendo isso partimos para uma problemática muito grande, associada, justamente, com a prática e manifestação dos Místicos e Espiritualistas que é a formação de não-enunciados, ou sentenças nulas de sentido[3]. Quando expõem suas crenças, e utilizam de outras crenças para sustentarem a crença inicial, temos um problema de uma sentença nula de verdade. Sendo a exposição completamente composta por crenças e desprovidas de um embasamento factual à única coisa que pode tornar essa exposição aceitável é crer nessa exposição. De forma que no momento que alguém duvida ou discorda dessa crença que sustenta a exposição, não crendo nela, esta exposição, simplesmente não tem mais condição de se sustentar.
O que se deriva daí, então, é uma série lamentável de táticas e subterfúgios feitos para "submeter" o indivíduo questionador à crença exposta. A formula mais comum é tentar impressionar o questionador com um volume grande de informação (informação difere de conhecimento) relacionada ao sistema de crenças do Místico. Ao ligar em cadeia crença sobre crença às vezes faz-se parecer que, de fato, há algo à ser compreendido e que a dúvida, ou questionamento, é fruto da incompreensão e desconhecimento do questionador sobre, justamente, essa exposição. Isso é falso. As pessoas que se servem desse tipo de subterfúgio são como ilusionistas, que tentam impressionar os seus espectadores para leva-los ao engano ("É realmente mágico!") para satisfazerem os seus Espíritos.
Outro exemplo de formação de sentenças nulas de sentido é quando se utilizam de termos vazios de sentido, sem significado algum, em seus enunciados acreditando que estes estão comunicando algo. Termos vagos e palavras "familiares" são empregados, novamente, na tentativa de iludir o indivíduo questionador tal como aconteceu com o reprodutor destes termos. Palavras sem sentido ou definição, que parecem verídicas e impressionantes, como quântico(quântica), metafísico, ego e mediante um certo questionamento eu já consegui atestar que até mesmo palavras como magia, ocultismo e misticismo não eram providas de uma definição clara e coesa, sendo, então, empregadas como termos nulos de valor, servindo para absolutamente nada senão para iludir (em verdade admito que esta foi uma das razões de eu me enveredar por este caminho de pesquisa).
Esse tipo de coisa, o emprego de termos e sentenças de valor nulo, devem ser rejeitadas e afastadas pois dão continuidade à um processo que eu chamo, sem muito carinho, admito, de ciclo coprofágico. Chamo de ciclo coprofágico o processo dos indivíduos de consumirem "coisas impalatáveis" e reproduzirem-nas para que outros a consumam também. Estes outros irão, então, produzir eles próprios "coisas impalatáveis" para que outros consumam e o ciclo continua. Esse tipo de nada que é consumido por muitos, crenças vazias de sentido e significado compostas quase que exclusivamente por não-enunciados e crenças empilhadas sem um embasamento factual, é reproduzido sem nada de valor ser gerado. A crença é simplesmente consumida e expelida em um processo de infindável repetição. O grande problema disso é o nível de delírio e ilusão que àqueles que estão presos nesse ciclo sofrem. Esse delírio impede eles de perceberem a falta de sentido dos atos que eles estão tomando e os faz crer que eles estão com a razão em fazerem o que fazem. É a pior espécie possível de Espiritualismo esta que aliena o indivíduo em uma ilusão e o faz indulgenciar em atos de pouca, ou nenhuma, credibilidade e sensatez. Bordões chamativos são como o cheiro que exala do meio ao qual esses indivíduos pertencem, clamam qualidades e virtudes nobres mas que, em verdade, quando investigadas se mostram tão ilusórias e vazias de sentido como todo o resto do que é produzido e consumido neste ciclo. Como crentes, estes indivíduos presos no ciclo de consumo e repetição do ciclo coprofágico, reagem à terem suas crenças, opiniões e métodos questionados da única forma que é, para eles, possível, através, justamente, de falácias e subterfúgios, além do uso claro das emoções e da incapacidade, ou recusa (o que acredito ser pior), de observação lógica, racional e analítica.
Para aqueles que verdadeiramente buscam o buscam, o conhecimento, e não opiniões ou satisfação pessoal, é o relevante. As falácias subvertem a qualidade do debate e da investigação, subterfúgios são golpes baixos e sujos, que mais tem como fim proteger o indivíduo do que embasar ou explicar o argumento. Afastam de si a necessidade por precisão e definição nas palavras e ideias que tratam por, tão somente, não terem precisão, tampouco definição, na tentativa de enganar àqueles que caem em seus embustes[3]. Honestidade intelectual e ideológica, além de retidão e decência, são virtudes que àquele que pretende realizar, verdadeiramente, uma jornada em direção ao conhecimento precisa ter para evitar iludir e ser iludido. Para evitar os viciosos e doentios ciclos coprofágicos.
[1] - LEMOS, Hugo, A Natureza, o dito "sobrenatural" e o Místico.
[2] - LEMOS, Hugo, Meditações II - O problema da "familiaridade".
[3] - CARNAP, Rudolf, A superação da metafísica pela análise lógica da linguagem, tradução de William Steinle, do original "The Elimination of Metaphysics Through Logical Analysis of Language",
[4] - LEMOS, Hugo, Do discurso: daquilo que é impreciso àquilo que é preciso.
Publicado por
Vinicius
Curso online e gratuito de Ciência, misticismo e religião da Universidade da Califórnia-Los Angeles(legendado)
Professora, doutora, PHD Courtenay Raia.
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Publicado por
Hugo Lemos
Irei tratar, neste texto, das questões de definir e clarear o entendimento que podemos ter daquilo que é chamado "místico" por muitos. Isso se fará por meio de um resgate e exploração do conceito. Para, no entanto, chegarmos à isso é necessário que façamos, também, uma investigação acerca do que podemos chamar de "natureza", buscando também maior clareza em seu significado. A razão para isso se revelará no decorrer do texto, por ora basta dizer que é inconcebível tratar uma coisa sem a outra.
Quando falamos da Natureza, e, por consequência, daquilo que é natural, temos muito facilmente considerações diversas acerca do objeto tratado. Mentes mais propensas à "poesia" podem conceber a Natureza como sendo o grade corpo de plantas e seres vivos que cercam e preenchem o mundo, e, talvez tolamente, conceber à Natureza certas feições antropomórficas ao chama-la de "acolhedora Mãe Natureza", isso se vê também em crentes de outros sistemas quando estes dão qualidades humanas à seus deuses de aspecto "sobre-humano", muitos "absolutos" e "incognoscíveis". Outros, de pretensões mais materialistas, creriam que Natureza é tudo àquilo que é material e não-humano no mundo. Ambas as noções, embora divirjam em fim, observam de fato a mesma coisa: a exterioridade daquilo que se julga ser a Natureza.
O Oxford Dictionaries traz duas definições que considero bastante interessantes para nossa investigação (traduzido do inglês para o português)[1]:
1. Os fenômenos no mundo físico em coletivo, incluindo plantas, animais, a paisagem e outros elementos e fatores da terra, em oposição à humanos e criações humanas.
- A força física que se supõe causar e regular os fenômenos do mundo.
2. As características, caráter ou qualidades básicas e/ou inerentes de algo.
- As qualidades ou caráter inerente ou essencial de uma pessoa ou animal
- As qualidades a qual nascemos ou herdamos que influenciam ou determinam a personalidade. Normalmente contrastada com a "nutrição".
No primeiro termo de definição temos a descrição superficial e "material" da Natureza como sendo o conjunto de "coisas" que existem no mundo além do homem e das suas criações diretas. Não gosto muito dessa concepção que exclui a humanidade como "parte da Natureza" pois isso nos nega como indivíduos naturais, oriundos da natureza. A especificação do termo segue com a ideia de Natureza como a força "física" que é responsável por causar e regular os fenômenos(os eventos) do mundo. Isso se torna fácil de entender quando força "física" é compreendida como "física" tal como a ciência. Podemos observar, para exemplos de clarificação, as ciências ditas "naturais" como biologia, física e química, como exemplo claro dessa ideia. Considerando isso, no entanto, me sinto forçado a pensar sobre o primeiro termo e sobre nossa condição enquanto humanos. Ora, as leis físicas se aplicam sobre nós, tal como os processos químicos e biológicos, não havendo, assim, demasiada distinção de nós, humanos, do resto das coisas que permeiam o mundo. Somos "regidos" pela natureza tal como todos os outros animais. No entanto, alguém poderia pensar, ainda há a questão das nossas criações humanas, isso nos separa dos animais. Ora, para de fato isso acontecer seria necessário que animais não "criassem". Podemos conceber, de forma clara, o exemplo de uma casa construída por um humano como sendo um exemplo de "criação" humana, a qual poderia ser tomada como uma obra não-natural. Mas então o que seria o ninho do pássaro? Embora possamos dar mais valor à um que à outro não acredito ser ótimo levarmos nossa preferência pessoal como valor de desempate nessa questão. E nosso possível favoritismo poderia nos levar à considerar que a casa humana é de uma complexidade muito maior em comparação ao ninho, mas também acredito que isso é falso. Ambas, afinal, possuem níveis de complexidade adequados e a separação de uma e outra se torna, então, algo de natureza arbitrária e, portanto, sobre isso nada podemos afirmar, com certeza e verdade. Ainda na esfera de "criação" é necessário apontarmos a noção de algo intocado pelo homem enquanto algo natural. Tal como no exemplo da casa e do ninho também não podemos divergir uma alteração do homem ao meio-ambiente daquela feita por outro animal sem que caiamos em uma dicotomia resolúvel somente por, novamente, uma elaboração arbitrária. Se, e muitos poderão pensar em algo assim, houver algo que seja objecionável quanto ao ser humano enquanto animal e parte da Natureza esta seria o fato dele ter expandido seus limites, influências e poder, sobre o resto do meio natural, mas isso, ainda assim, não é o suficiente para separa-lo da Natureza e do controle (da "regência") desta sobre ele.
No segundo termo temos uma definição que considero de demasiado valor e interesse para nós: a ideia de Natureza como sendo o conjunto de elementos intrínsecos de determinada coisa. Você provavelmente já usou, muitas vezes, Natureza nesse sentido ("Eu sou irritado por natureza", "minha natureza é individualista", "é natural ao pensamento desse sistema a ideia de...", etc). Temos a ideia de "caráter" não só como "caráter humano" ("fulano é bem correto mas é meio preguiçoso...", etc.) mas também como "aspecto" ("a pedra é dura", "a água é molhada...", etc.) pertinente à determinada coisa. É importante notar que aqui podemos falar, muitas vezes, de aspectos que são derivados de crenças humanas, não sendo factuais e portanto não sendo aspectos da Natureza enquanto àquilo que afirmam, mas sim enquanto existência[2]. Além disso a noção de algo que é prévio ao indivíduo, que jaz no âmago do mesmo, e é determinante em sua "personalidade" é, também, algo de fascinante especialmente quando posto em contraponto à ideia de "nutrição", que nesse contexto tem o sentido de desenvolvimento, crescimento.
Considerando que ambas as definições tratam da mesma coisa podemos entender, com certa facilidade, o conjunto das definições de Natureza nos termos 2 com a expansão dos termos 1. Natureza, então, seria o conjunto de aspectos inerentes e essenciais de "algo" que, então, é responsável por causar e regular os fenômenos no mundo. Ora, o que seria esse "algo" então? Já que prefiro evitar falar da "realidade" e do que é "real" posso inferir somente, mas sem medo de equivocar-me, que a resposta para o que seria esse "algo" seria o Universo. Temos também a ideia de Natureza como qualidades com as quais nascemos e que influenciam em nossa "personalidade" (isso implica nas disposições[3]) e posto isso no contexto anterior podemos chegar à noção de uma "personalidade"(que deve ser entendida como "feição" ou "aspectos") para o Universo. Já que se supõe que a Natureza controla e rege os fenômenos no mundo e essa Natureza aqui tratada é a Natureza do Universo temos que o Universo orquestra seus movimentos de acordo com a volição que é natural à sua gênese e seu âmago, de acordo com a sua "personalidade inerente", tal como o indivíduo age de acordo com as suas disposições (sua natureza, sua personalidade, seu Espirito, etc). As Leis do Universo, então, são a expressão da Natureza do Universo e das "disposições" da mesma. Como somos subordinados à ele, o Universo, somos, também, regidos por suas volições, por suas Leis, tal como, e esse exemplo é expresso em muitos sistemas de crença, um filho, pois somos oriundos dele, de um pai (o Universo e de sua Natureza) que segue às suas ordens (suas Leis).
Aproveitarei o momento para notar que agora fica claro como os crentes e os poetas se deixam iludir pela ideia de uma Natureza pessoal e antropomórfica. Isso é fruto, creio, de um certo sentimentalismo romântico e da falta de compreensão dos mesmos acerca da crença e conceito por eles carregada e exposta.
Assim sendo temos agora uma maior compreensão acerca do que seria a Natureza: ela é a coleção de aspectos intrínsecos e essenciais contidos por determinada coisa não sendo, portanto, uma coisa em si. Ou seja, ela é sempre pertinente à algo (a Natureza da pedra, a Natureza da água, a Natureza do homem, a Natureza do Universo, etc). Devemos notar aqui, então, que essa ideia muitas vezes se confunde na mente dos distraídos e descuidados pois muitas vezes estes se referem à Natureza somente e acham que fazem valer algum sentido, no entanto fica claro, pelo emprego que fazem do termo, que se referem, quando falam de uma Natureza descompanhada, una, à Natureza do Universo. Podemos citar como sendo da nossa Natureza, enquanto humanos, nossas características e aspectos, assim como podemos também fazer isso acerca do Universo. E enquanto podemos falar que nós, humanos, temos, por natureza, cabelo, podemos também citar as coisas que pertencem no Universo como sendo parte de sua Natureza, tal como os animais, as plantas, as paisagens, de forma que agora, finalmente, temos um quadro completo acerca daquilo que podemos chamar de Natureza, tanto enquanto conceito como também enquanto noção aplicada ao Universo.
A partir dessa compreensão temos, então, que refletir sobre a implicação do sentido daquilo que é dito "sobrenatural". Sobrenatural implica em algo que está acima da natureza, sobre a natureza, de forma à fugir de suas "leis". No entanto sabemos agora que as Leis são a Natureza, e essas Leis ocorrem no Universo. Assim sendo temos implicações diversas para a situação cá presente. Se o Sobrenatural vai além da Natureza do Universo, e de suas Leis, então isso significa que ele, necessariamente, vai além do próprio Universo, não pertencendo à este. Assim sendo ele há de pertencer a um Universo outro. Ainda assim, neste "outro Universo" a noção de Natureza se aplicaria, pois Natureza da descrição dos elementos que compõem a existência de tal coisa, assim sendo, se não houvesse Natureza não haveria nada que compusesse a coisa e, portanto, a coisa não existiria. Com isso quero dizer: mesmo que o sobrenatural venha a existir em algum tipo de "outro Universo" este outro universo ainda assim teria, necessariamente, de possuir uma Natureza e, portanto, mesmo o "sobrenatural" seria "natural" em seu "plano nativo de existência", o lugar onde se origina. Para, então, este dito "sobrenatural" se manifestar no nosso Universo, supondo, para fins de exposição, que este exista e que exista em um outro Universo, ele ainda assim precisaria se adequar, de uma forma ou de outra, às Leis do Universo onde este se apresenta. Se essa adequação não for possível também não será possível a existência deste dito "sobrenatural" em um Universo incompatível com o mesmo. Para exemplificarmos isso pensemos em um videocassete e um DVD. É impossível que você consiga tocar uma fita de VHS em um DVD e vice-versa, os "tocadores" (os Universos) recebem determinado formato (tem determinadas Leis) e para que se consiga tocar tal fita, ou tal dvd, no outro tocador é necessário que se adapte, por exemplo, o filme (o objeto "sobrenatural") da fita (que representa o "formato", ou seja, o conjunto de Leis de tal Universo) para um formato digital adequado ao DVD. Outro exemplo seria a de um corpo d'água (o objeto) que se adéqua à forma (conjunto de Leis, a Natureza) de um determinado recipiente, um jarro (Universo). A água se adapta ao formato do jarro tal como o objeto se adéqua às Leis do Universo em que se encontra. Quando a água é levada à outro recipiente, como, por exemplo, um copo (outro Universo), ele se adequará ao novo formato (novo conjunto de Leis, nova Natureza). Se houver alguma incapacidade deste líquido se adequar, ele pode, por exemplo, estar congelado e por conta de seu formato ele não adentra o novo recipiente, não haverá, então, interação com o novo recipiente. Ainda temos a possibilidade de se o volume de água do jarro for maior do que o volume previsto pelo copo haver transbordo do líquido para que este se adeque ao recipiente e à sua forma (podemos entender isso da seguinte forma: um indivíduo, em seu plano de origem, possui certas qualidades. Ao adentrar outro plano, onde essas qualidades não são previstas, não fazem parte da Natureza do plano, o indivíduo perde essas qualidades para se adequar). Não se esqueçam que estamos lidando com suposições teoréticas aqui, a possibilidade da existência de outro Universo com outras Leis é incomprovada e não devemos toma-la como certa. Além do mais ainda há a questão de como se dá a interação entre esses dois Universos, que é, também, especulativa e incomprovada.
Assim temos que chamar algo de "sobrenatural" é um termo vazio, já que o "sobrenatural" sempre será adequado à Natureza de onde quer que esteja. Se ele pertence e repousa em determinado Universo ele está adequado às leis deste Universo, se este, de alguma forma, se manifesta em outro Universo esta manifestação, este fenômeno, será adequado, necessariamente, às Leis do Universo almejado, que ele pretende "interagir", afetar. Portanto digo que "sobrenatural" é um termo desprovido de sentido e de função, de forma que deve ser abolido. O mesmo pode ser dito de termos semelhantes como, por exemplo, "meta-física"[4].
No entanto a questão daquilo que foge à compreensão do que entendemos acerca da Natureza do Universo persiste e ainda de fato há, coisa que não posso negar, alegações, suposições, especulações e ponderações acerca de certos fenômenos naturais mas que ainda não são compreendidos, são desconhecidos. Muitas pessoas dessa área recorrem ao termo "místico" para se referirem às coisas de Natureza "sublime" (ou sutil) do Universo. Com "sublime" (ou sutil) estes querem dizer (quer saibam ou não) que isso, aquilo que é "místico", é referente aos aspectos menos evidentes, ainda ocultos e desconhecidos, da Natureza de determinada coisa. A romantização em cima da noção do "místico" é, novamente, fruto de mentes mais propensas à poesia, não sendo, necessariamente, condizente com a realidade.
A grande questão acerca do que é chamado de "místico" é o fato dele ser uma faceta, uma parcela, de algo que é familiar[5], o Universo. A coisa, o Universo, é familiar, próxima, palpável, reconhecível, mas a Natureza do Universo, os aspectos intrínsecos e essenciais do Universo, não são por inteiro conhecidos. É à essa parcela da Natureza que é desconhecida que se refere o termo "místico".
[1] - Oxford Dictionaries - Nature (em inglês)
[2] - LEMOS, Hugo, Da Crença e da Verdade
[3] - LEMOS, Hugo, Das Crenças: O Espírito
[4] - CARNAP, Rudolf, A superação da metafísica pela análise lógica da linguagem, tradução de William Steinle, do original "The Elimination of Metaphysics Through Logical Analysis of Language",
[5] - LEMOS, Hugo, Meditações III - O problema da "familiaridade"
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